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O Processamento Auditivo Central e o Aprendizado

Distúrbio do processamento auditivo central, a doença da incompreensão. Problema afeta a capacidade de entendimento dos indivíduos. A pessoa ouve, mas não consegue interpretar os sons

Matéria publicada no Correio Braziliense em Maio de 2011.

Ivone e Valdir com Akemi, 12 anos: depois de sofrer duramente com o problema, a menina foi diagnosticada, fez acompanhamento multidisciplinar e chegou a ser condecorada na escola (Rafael Ohana/CB/D.A Press)
Ivone e Valdir com Akemi, 12 anos: depois de sofrer duramente com o problema, a menina foi diagnosticada, fez acompanhamento multidisciplinar e chegou a ser condecorada na escola

Preguiçoso, distraído, desinteressado, “enrolão”, manhoso e “diferente” foram alguns adjetivos atribuídos ao filho da professora Mônica Aviani pelas colegas de profissão que acompanhavam o garoto em sala de aula desde os primeiros anos na escola. Desesperada com a situação e suspeitando da existência de um problema por trás do comportamento da criança, Mônica procurou uma explicação médica. Suspeitas de dislexia, disgrafia e transtorno do deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) foram levantadas. Os tratamentos para cada mal diagnosticado resultavam em algumas — poucas — melhoras no quadro, mas logo estagnava. Aos 11 anos, Emanuel Aviani Curi não conseguia ler nem escrever.

“Quem é mãe pode imaginar a minha agonia. Cansei de ouvir que meu filho era inteligente, mas não conseguia evoluir na escrita e na leitura por malandragem”, lembra. O diagnóstico correto veio depois de muita persistência: Emanuel era vítima do distúrbio do processamento auditivo central (DPAC). “Cheguei a castigá-lo. Professores e médicos que desconheciam o problema falavam que eu tinha que ser linha-dura. Foi muito triste, até encontrar uma psicopedagoga,  que mostru-se fundamental para o enfrentamento da situação. Hoje, meu filho tem 13 anos, está alfabetizado e tenta recuperar o tempo perdido”, relata.

O DPAC é um problema reconhecido pela medicina há apenas 15 anos. O transtorno afeta a capacidade de compreensão do indivíduo. A pessoa detecta os sons normalmente, mas não os interpreta, é como se fossem apenas ruídos. Quando relegados à própria sorte, a alfabetização não é bem-sucedida, porque os estudantes não entendem o que o professor fala, não são capazes de escrever, interpretar textos e compreender o enunciado de problemas. No Brasil, pouquíssimos profissionais da saúde e da educação estão capacitados a lidar com o distúrbio, deixando as crianças reféns da própria incapacidade e do desconhecimento alheio.

A psicopedagoga Carla Silva, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Atendimento ao Aluno com Diagnóstico de DPAC do Centro de Apoio ao Surdo (CAS) do Distrito Federal, profissional que socorreu Mônica, é uma das poucas no país dedicada a reabilitar estudantes com o problema. “Iguais ao Emanuel, existem muitas crianças. Quando chegam ao CAS, a maioria passa por um diagnóstico errado, inclusive de deficiência mental. É uma tristeza, porque são meninos e meninas inteligentes e completamente reabilitáveis”, observa.

Segundo Carla, os principais sintomas do DPAC são a dificuldade de memória de curto prazo, falta de entendimento, pouca concentração e incapacidade de leitura e escrita. Passando por um processo de reeducação, no entanto, os estudantes desenvolvem rotas alternativas de aprendizado. A demora no diagnóstico pode gerar comorbidades, como dislexia, TDAH e distúrbio do deficit de atenção — justamente as suspeitas levantadas para a situação de Emanuel. “A abordagem multidisciplinar permite que o paciente aprenda a desenvolver mecanismos diferentes e rotas alternativas para driblar seu distúrbio, o que não ocorre com os outros problemas. O tempo de reabilitação, assim como a gravidade do DPAC, é variável”, sustenta Carla.

Ouvido saudável

Ele não conseguia copiar, emendava palavras, não lia e não acompanhava a turma. Eu ia conversar com as professoras e elas achavam que ele tinha preguiça, que uma hora ia deslanchar. Isso não ocorreu antes do diagnóstico e da reabilitação%u201DCristina Gonçalves dos Anjos, mãe de Lucas, hoje com 9 anos e em pleno tratamento de reabilitação (Kleber Lima/CB/D.A Press)
Ele não conseguia copiar, emendava palavras, não lia e não acompanhava a turma. Eu ia conversar com as professoras e elas achavam que ele tinha preguiça, que uma hora ia deslanchar. Isso não ocorreu antes do diagnóstico e da reabilitação%u201D
Cristina Gonçalves dos Anjos, mãe de Lucas, hoje com 9 anos e em pleno tratamento de reabilitação

O problema dos pacientes com DPAC não é no ouvido, mas no sistema nervoso central. O processamento do estímulo sonoro não é feito corretamente e a decodificação é lenta. “O papel do professor é fundamental. O aluno com DPAC precisa sentar-se na frente. O professor deve articular devagar com esse estudante, falar olhando para ele. Quando isso não ocorre, a criança fica dispersa ou hiperativa, torna-se um problema para a turma”, alerta Carla Silva.

As crianças com DPAC sofrem tanto que a autoestima delas fica completamente afetada. A garotada se sente incapaz perante os colegas. O pequeno Lucas Gonçalves Ramos, 9 anos, também teve dificuldade desde que entrou na escola. “Ele não conseguia copiar, emendava palavras, não lia e não acompanhava a turma. Eu ia conversar com as professoras e elas achavam que ele tinha preguiça, que uma hora ia deslanchar. Isso não ocorreu antes do diagnóstico (aos 8 anos) e da reabilitação”, lamenta a mãe do menino, a dona de casa Cristina Gonçalves dos Anjos. “Lucas chorava, se escondia e ficou um ano sem ir à escola. Persisti, procurei clínicas particulares, porque, se fosse esperar atendimento público, meu filho estaria sem diagnóstico até hoje. Embora atrasado em relação à idade escolar, ele está superando o problema graças ao tratamento e ao acompanhamento psicopedagógico”, considera.

Os mesmos dissabores de Lucas foram vivenciados por Akemi Yokozawa Vasco, 12 anos. “Ficamos completamente perdidos, buscando respostas que demoraram a vir. Minha filha foi diagnosticada com deficit de atenção. Tomou medicamentos fortíssimos por cinco anos e nunca melhorou, porque esse não era o seu problema”, lamenta o empresário Valdir Cordeiro Vasco. Akemi não conseguia copiar nada durante a aula. Para levar as tarefas feitas, a mãe precisava ligar para outras mães e resgatar o que ela perdera.

Os professores não entendiam o que se passava, porque reconheciam em Akemi uma aluna esforçada. Muitos pais também têm dificuldade e preconceito em aceitar que o filho é vítima de distúrbio de aprendizagem. “Nós não desistimos e enfrentamos. Ela chegou a questionar a própria existência. Depois que passou pelo acompanhamento multidisciplinar, seguiu em frente e já recebeu alta. Akemi foi até condecorada na escola por seu desempenho e esforço”, conta Ivone Yokozawa, mãe da menina.

Hipóteses
A neuropsicóloga Ana Fonseca explica que não se sabe ao certo como o DPAC é desencadeado. Uma corrente de pesquisadores acredita que infecções do ouvido médio (que impedem o cérebro de receber adequadamente os estímulos sonoros); lesões nas vias de condução; doenças neurodegenerativas; males como rubéola, sífilis e toxoplasmose; ou mesmo alcoolismo e dependência química materna podem promover o transtorno. Nada, contudo, ainda foi provado cientificamente. “Não acredito que seja um distúrbio adquirido. Acho que o bebê já nasce com DPAC. O diagnóstico é consolidado pela fonoaulogia com testes especiais que descartam outros problemas. Não há exames de imagem que aponte danos nos neurônios, por exemplo. A avaliação do neuropsicólogo, entretanto, é fundamental para a indicação do tratamento”, avalia Ana, especialista pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A neuropsicóloga pondera que não se pode falar em cura, mas lembra que o cérebro é um órgão com capacidade plástica impressionante, que se molda a novos estímulos. “Exatamente por isso, a terapia multidisciplinar pode reabilitar o paciente totalmente, proporcionando uma vida normal ao estudante, mas para isso é preciso um trabalho em equipe com fonoaudiólogo, neuropediatra, neuropsicólogo e psicopedagogo”, especifica.

A fonoaudióloga Lana Bianchi explica que a alteração no processo auditivo central descaracteriza a qualidade do som. Como consequência, a criança que está em processo de aquisição de aprendizagem sucumbe a essa dificuldade. “O neuropediatra faz uma investigação cerebral, a psicóloga, a avaliação mental e o fonoaudiólogo, todos os testes de audição e do processamento auditivo. Nós reabilitamos as habilidades auditivas. O psicopedagogo ensina a criança a usar o que foi reabilitado”, aponta.

 

Link da notícia: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2011/05/15/interna_ciencia_saude,252293/disturbio-do-processamento-auditivo-central-a-doenca-da-incompreensao.shtml

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Dislexia: Visões ético-políticas

AUTORES – Lúcia Masini e Cláudia Perrotta

Já há algum tempo, o termo dislexia deixou de circular apenas entre especialistas e vem figurando na mídia em geral: jornais impressos, rádio, revistas, propagandas na TV .

Dislexia tem origem grega, sendo a contração de dis = difícil, prejudicada, e lexis = palavra. Palavra difícil, geradora de muitas polêmicas e que exige um posicionamento ético muito claro por parte dos profissionais envolvidos com pessoas que recebem esse diagnóstico. Fonoaudiólogos, psicopedagogos, psicólogos, cada vez mais, tratam de crianças, adolescentes e até adultos considerados disléxicos, muitos deles encaminhados pelas instituições escolares por professores que suspeitam do distúrbio.

Inclusive, recentemente circulou na Câmara Municipal de São Paulo projeto de lei (PL) que propõe a criação de um “Programa Estadual para Identificação e Tratamento da Dislexia na Rede Oficial de Educação”. Segundo o texto, o Programa “terá caráter preventivo e também proverá o tratamento do educando, [devendo] abranger a capacitação permanente dos educadores para que tenham condições de identificar os sinais da dislexia e de outros distúrbios.”

Sobre esse projeto, que já foi considerado inconstitucional, há tanto manifestações favoráveis, de profissionais que defendem a necessidade de se identificar precocemente o distúrbio, como desfavoráveis, daqueles que questionam a validade do diagnóstico e alertam para a possibilidade de a lei contribuir para estigmatizar os que destoam do padrão de desenvolvimento e são apressadamente caracterizados como doentes.

Tratar-se-ia, pois, de uma tendência à “medicalização” de questões sociais, ou “patologização da educação”, que tem gerado reações contundentes de especialistas de instituições como o CRP (Conselho Regional de Psicologia), USP (Universidade de São Paulo) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ou seja: questões como falta de concentração, dificuldade de aprendizagem, entre outras estariam sendo, de imediato, tratadas como doenças, levando a um número elevado de crianças medicadas sem necessidade.

A questão é tão fundamental que ganhou, em 21/09/09, um espaço na Câmara Municipal de São Paulo. O Seminário: Dislexia – Subsídios para Políticas Públicas foi promovido pelo CRP-06, SinPsi (Sindicato de Psicologia), Câmara Municipal de São Paulo, na pessoa do vereador Eliseu Gabriel, e Grupo Interinstitucional Queixa Escolar, com apoio das Secretarias Municipais de Saúde e de Educação.

Os profissionais reunidos debateram o assunto a partir dos seguintes aspectos: enfrentamento de dificuldades de leitura e escrita no Município de São Paulo; questionamentos sobre a existência da dislexia a partir de estudos científicos; embate em torno da medicalização e escolarização.

Esse é de fato um tema caro para nós, profissionais que trabalhamos na área da linguagem, além de muito complexo, pois, não raras vezes, as histórias de vida de nossos pacientes com dificuldades para ler e escrever, bem como o desmembramento dos processos terapêuticos nos levam, justamente, a discordar do diagnóstico de dislexia.

Como então devemos nos posicionar? Como apresentar nossas discordâncias e entendimento para os representantes das instituições escolares, que, muitas vezes, insistem nessa doença? E quanto aos familiares, que tão ansiosamente buscam uma explicação para os problemas de aprendizagem de seus filhos? Como explicar por que desconfiamos de um diagnóstico que existe, muitas vezes, para livrar a pessoa que sofre desse mal do rótulo de burro ou vagabundo? Na verdade, é a troca de um estigma por outro, ambos perigosos e inespecíficos…

Vamos refletir sobre o tema.

Uma polêmica longe do consenso

Apesar ser considerada uma doença neurológica e de existir nos guias de classificação médica, como o CID 10 e o DSM IV, a dislexia não possui um diagnóstico preciso para a área médica.

Na mesa redonda promovida pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, em março de 2009, intitulada: “Dislexia e TDAH: questões e polêmicas teórico-práticas”, Maria Aparecida Affonso Moysés, pediatra, profª titular da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, questionou, justamente, o recente aumento dos diagnósticos de Dislexia e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade –TDAH: Existe uma doença neurológica que compromete só a aprendizagem da língua escrita e o comportamento, que são as áreas mais sofisticadas, complexas e de maior diversidade do ser humano? Como é feito o diagnóstico?

De fato, para a área científica, em especial o diagnóstico de dislexia é falho e inconclusivo. E vários são os motivos:

• Trata-se de um diagnóstico de exclusão; ou seja, para que uma pessoa seja considerada disléxica é preciso que apresente somente problemas de leitura e de escrita e nenhum de ordem cognitiva, escolar, social, afetiva ou orgânica. Mas como determinar a não existência desses outros problemas?

• Trata-se de um diagnóstico neurológico obtido indiretamente, através de elementos neurológicos. Mas como determiná-lo se não há consenso entre os pesquisadores sobre quais seriam esses elementos específicos para a dislexia?

• Trata-se de um diagnóstico obtido diretamente pela incidência e persistência de erros na leitura e na escrita; ou seja, a pessoa é disléxica quando apresenta muitos deles. Mas uma pessoa que, por exemplo, ainda não sabe ler e escrever com competência não poderá persistir em alguns erros? Isso não seria um sinal de saúde?

O diagnóstico é, portanto, subjetivo, dependendo dos valores de quem o realiza, o que faz com que a dislexia tenha ‘nota de corte’ (termo utilizado por Moysés, durante o seminário na Câmara Municipal supracitado) bastante flexível. Assim, alguém que, por exemplo, cometa apenas erros ortográficos com certa persistência pode ser considerado disléxico. Como não há nenhuma pesquisa que meça com exatidão qual é o momento final da aprendizagem, como saber se estamos diante de um disléxico ou de alguém que ainda está no curso de seu processo de construção desse conhecimento específico? E como admitir que um problema biológico dependa da autoridade de quem avalia?

A arbitrariedade desse diagnóstico traz embutida uma série de preconceitos. Para exemplificar o que seriam problemas sociais e afetivos que excluiriam a suspeita de dislexia, certa vez, um médico sentenciou: se o garoto tem uma família desestruturada, pai bêbado e mora na favela, aí ele não é disléxico. Quais raciocínios podemos fazer a partir dessa afirmação? Ter pai alcoólatra isentaria o filho de ter dislexia. Morar em favelas também. Ter uma família desestruturada idem. Por outro lado, quem não tem “família desestruturada”, pai bêbado ou não mora em favelas, ou seja, não tem problemas sociais e afetivos, e tem dificuldades de leitura e escrita sem outros comprometimentos orgânicos, fatalmente, será considerado disléxico. E diante da complexidade das relações interpessoais, qual seria um padrão de família estruturada?

O que fragiliza ainda mais este diagnóstico é o fato de as pessoas suspeitas de apresentarem a doença serem submetidas a avaliações que se utilizam da linguagem escrita segundo os métodos tradicionais de ensino. Em outras palavras, o instrumento de ensino que se apresentou ineficiente para que determinada pessoa aprendesse a ler e a escrever é o mesmo usado para diagnosticá-la. Ora, como é que podemos fazê-lo usando como instrumento exatamente aquilo que essa pessoa já traz como sendo sua dificuldade? É óbvio que ela não se sairá bem na avaliação!

Nem os mais modernos exames de neuroimagem escapam à fragilidade do diagnóstico de dislexia. Isto porque, para se obter uma imagem neurológica da área que é ativada quando se lê ou se escreve, é preciso que a pessoa examinada leia ou escreva. Voltamos ao mesmo ponto citado acima: a pessoa que não sabe ler ou lê com dificuldades terá menos ativação em determinada parte do cérebro. Há pesquisas que mostram que as imagens de um cérebro em ativação de um disléxico são muito semelhantes às de um analfabeto. O analfabetismo seria também uma doença neurológica? Nem vamos nos alongar no absurdo dessa proposição. O que temos a considerar é que o exame de neuroimagem detecta sim a consequência, em termos de ativação cerebral, e não a causa da dificuldade para ler ou escrever.

Perseguida desta forma, a dislexia tem deixado de ser um diagnóstico para ser uma sentença. Uma sentença que não leva em consideração a diversidade dos modos de aprender. A aprendizagem, segundo Moysés, com quem concordamos integralmente, é uma das atividades humanas mais complexas e de difícil avaliação porque implica e lida com valores e culturas que variam de família para família. Num mesmo grupo escolar temos inúmeros grupos familiares, inúmeras influências na construção do conhecimento. Como determinar qual é o modo correto de aprender ou o seu tempo exato?

E é importante que se denuncie que algo muito sério está acontecendo com o tempo de aprendizagem. Muitas escolas, tanto particulares como públicas, mais comprometidas com as avaliações externas às quais estão sendo submetidas, estão acelerando processos de aprendizagem de seus alunos para garantir uma boa classificação, e, consequentemente, maior procura no mercado da educação (cf. comentário de Rosely Sayão: “Para que serve mesmo esse ranking?”. http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/). Um dos resultados dessa aceleração é preocupante: ainda no início do processo de alfabetização, as crianças que têm se mostrado mais “lentas” do que a escola gostaria, ou fora de padrões de desenvolvimento, estão sendo encaminhadas para aulas de recuperação (o que seria recuperar algo que ainda faz parte do início de um processo?) ou para especialistas na área. E para justificar este atendimento, o diagnóstico de dislexia ou TDAH tem servido como uma luva.

A quem estamos favorecendo quando aceitamos esse encaminhamento da questão?

Certamente não é a quem sofre por ter sido estigmatizado e considerado incapaz de ler e escrever, embora os adeptos do diagnóstico precoce de dislexia insistam em dizer que sim. Mas o que acontece na vida de uma pessoa pós-diagnóstico? Isso deve ser analisado com extrema cautela.

Há quem relate alívio por saber que o filho ou ele próprio é doente e não vagabundo ou burro, como comentamos anteriormente. Este alívio, por vezes, transforma relações tensas em outras mais saudáveis, e a pessoa consegue ter uma vida feliz e bem sucedida, o que costuma ser, inclusive, um importante argumento dos adeptos do diagnóstico precoce. Para estes, não são raras as grandes personalidades no mundo das artes e das ciências que foram diagnosticadas disléxicas. É a dislexia agregando valor à pessoalidade.

Para outros, entretanto, a certeza da doença é a marca das limitações, pois ter a dificuldade de ler e escrever comprovada significa o fechamento de muitas portas na vida. E, aí, ou se busca algo dentro dessa limitação, ainda que não seja o desejado, ou se persegue o que se quer, mas carregando o fantasma da incapacidade. Em ambas as opções o sofrimento estará presente.

No entanto, há algo que une essas duas posições – a de alívio e de martírio – e que faz da comprovação da dislexia uma sentença e não um diagnóstico: a fuga de situações cotidianas que envolvam a leitura e a escrita.

Num mundo em que as situações de leitura e escrita ganham as mais variadas formas, em que o conceito de letramento tem de ser sempre atualizado para abarcar as novas demandas sociais, é possível viver evitando situações cotidianas letradas? Não, não é possível.

Mas, se questionamos o diagnóstico de dislexia, que tipo de intervenção propomos?

Outra possibilidade de intervenção

Os profissionais das áreas da saúde e educação que optam por estar verdadeiramente ao lado de quem sofre por ter dificuldade em ler e escrever assumem uma outra conduta no encaminhamento da questão.

Não se trata de negar a existência da dificuldade. Trata-se, sobretudo, de se evitar a rotulação da incapacidade como algo constitutivo daquela pessoa. Nossa experiência clínica nos autoriza a dizer que as queixas de dificuldades de leitura e escrita carregam histórias singulares que fazem toda a diferença na condução do processo terapêutico. Isto significa dizer que as dificuldades apresentadas foram construídas ao longo de histórias de vida, pelas parcerias criadas em diferentes contextos, fazendo parte, portanto, do modo de ser de cada um.

Compreender tais dificuldades implica escutar a história de quem nos procura para atendimento; reconstituir alguns caminhos percorridos, identificando conflitos e sofrimentos; ofertar materiais diversos de leitura e escrita, mais para observar como a pessoa lida com eles do que para avaliar o produto realizado. Auxiliá-la na superação de suas dificuldades implica acolher seu modo de ser diante da leitura, da escrita, do erro e do não saber, ofertando, no tempo oportuno, experiências com a leitura e a escrita ainda não vivenciadas, para que, uma vez bem sucedidas, possam ser, aos poucos, incorporadas à sua história de vida, imprimindo-lhe um sentimento de potência e autonomia diante de futuros conflitos.

Se há algo que podemos dizer que seja regra no trabalho de superação de dificuldades de leitura e escrita é o estabelecimento de parcerias saudáveis, pelas quais a pessoa que sofre possa se ver capaz, potente e criativa. Entendemos por parcerias saudáveis aquelas que respeitam as singularidades, que compreendem os ritmos pessoais, que possam reinventar e acolher diferentes modos de aprendizagem e de experiência com o conhecimento.

Uma visão como esta, num contexto social mais amplo, provocaria mudanças profundas em diferentes instituições, pois implicaria assumir novas formas de avaliação e enfrentamento dos problemas de leitura e escrita vividos pela população, deslocando-os do caminho que os toma como problemas individuais para colocá-los na ordem dos processos sociais, sempre complexos e multifacetados, em que a diversidade é inegável. Como sustentar, nesta perspectiva, um diagnóstico de dislexia? Talvez esteja aqui o centro de toda a polêmica.

FONTE: Retirado do site  www.ifono.com.br

Dislexia – Conceitos Básicos

Dislexia 657

O que é?

É uma dificuldade primária do aprendizado abrangendo: leitura, escrita, e soletração ou uma combinação de duas ou três destas dificuldades. Caracteriza-se por alterações quantitativas e qualitativas, total ou parcialmente irreversíveis . É o distúrbio (ou transtorno) do aprendizado mais freqüentemente identificado na sala de aula. Está relacionado, diretamente, à reprovação escolar, sendo causa de 15 % das reprovações. Em nosso meio, entre alunos das séries iniciais (escolas regulares) têm sido identificados problemas em cerca de 8 %. Estima-se que a dislexia atinja 10 a 15 % da população mundial

Quem pode ser afetado?

A dislexia não é o resultado de má alfabetização, desatenção, desmotivação, condição sócio-econômica ou baixa inteligência. Ela pode atingir igualmente pessoas das raças branca, negra ou amarela, ricas e pobres, famosas ou anônimas, pessoas inteligentes ou aquelas mais limitadas.

Qual a causa?

A dislexia tem sido relacionada a fatores genéticos, acometendo pacientes que tenham familiares com problemas fonológicos, mesmo que não apresentem dislexia. As alterações ocorreriam em um gene do cromossomo 6 . A dislexia, em nível cognitivo- lingüístico, reflete um déficit no componente específico da linguagem , o módulo fonológico, implicado no processamento dos sons da fala. Uma criança que tenha um genitor disléxico apresenta um risco importante de apresentar dislexia, sendo que 23 a 65 % delas apresenta o distúrbio.

Um gene recentemente relacionado com a dislexia é chamado de DCDC2. Segundo o Dr. Jeffrey R. Gruen, geneticista da Universidade de Yale, Estados Unidos, ele é ativo nos centros da leitura do cérebro humano.

Outro gene, chamado Robo1, descoberto por Juha Kere, professor de genética molecular do Instituto Karolinska de Estocolmo, é um gene de desenvolvimento que guia conexões, chamadas axônios, entre os dois hemisférios do cérebro.

Pesquisadores dizem que um teste genético para a dislexia pode estar disponível dentro de um ano. Crianças de famílias que têm história da dislexia poderão ser testadas. Se as crianças tiverem o risco genético, elas podem ser colocadas em programas precoces de intervenção.

O que se sente?

Sinais indicadores de dislexia:

A dificuldade de ler, escrever e soletrar mostra-se por dificuldades diferentes em cada faixa etária e acadêmica

Pré-Escola, pré-alfabetização

Aquisição tardia da fala
Pronunciação constantemente errada de algumas sílabas
Crescimento lento do vocabulário
Problemas em seguir rotinas
Dificuldade em aprender cores, números e copiar seu próprio nome
Falta de habilidade para tarefas motoras finas (abotoar, amarrar sapato, …)
Não conseguir narrar uma história conhecida em seqüência correta
Não memorizar nomes ou símbolos
Dificuldade em pegar uma bola

Início do ensino fundamental – Alfabetização

Dificuldades mais identificadas :

fala.
aprender o alfabeto
planejamento e execução motora de letras e números
preensão do lápis
motricidade fina e do esquema corporal.
separar e seqüenciar sons (ex: p – a – t – o )
habilidades auditivas – rimas
discriminar fonemas de sons semelhantes: t /d; – g / j; – p / b.,
diferenciação de letras com orientação espacial: d /b ;- d / p; – n /u; – m / u pequenas diferenças gráficas: e / a;- j / i;- n / m;- u /v
orientação temporal (ontem – hoje – amanhã, dias da semana, meses do ano)
orientação espacial (lateralidade difusa, confunde a direita e esquerda, embaixo, em cima) execução da letra cursiva

Ensino Fundamental

Dificuldades mais identificadas:

atraso na aquisição das competências da leitura e escrita. Leitura silábica, decifratória. Nível de leitura abaixo do esperado para sua série e idade.
soletração de palavras
ler em voz alta diante da turma
supressão de letras: cavalo /caalo;-. biblioteca/bioteca; – bolacha / boacha
Repetição de sílabas: pássaro / passassaro; camada / camamada
seqüência de letras em palavras Inversões parciais ou totais de sílabas ou palavras (ai-ia; per-pré; fla-fal; me-em).
Fragmentação incorreta: o menino joga bola – omeninojo gabola
planejar, organizar e conseguir terminar as tarefas dentro do tempo
enunciados de problemas matemáticos e figuras geométricas
elaboração de textos escritos expressão através da escrita
compreensão de piadas, provérbios e gírias
seqüências como: meses do ano, dias da semana, alfabeto, tabuada. mapas
copiar do quadro

Ensino Médio

Dificuldades mais identificadas:

Podem ter dificuldade em aprender outros idiomas.
Leitura vagarosa e com muitos erros
Permanência da dificuldade em soletrar palavras mais complexas
Dificuldade em planejar e fazer redações
Dificuldade para reproduzir histórias
Dificuldade nas habilidades de memória
Dificuldade de entender conceitos abstratos
Dificuldade de prestar atenção em detalhes ou, ao contrário, atenção demasiada a pequenos detalhes
Vocabulário empobrecido
Criação de subterfúgios para esconder sua dificuldade

Ensino Superior / Universitário

Dificuldades mais identificadas:

Letra cursiva.
Planejamento e organização.
Horários (adiantam-se, chegam tarde ou esquecem).
Falta do hábito de leitura.
Normalmente tem talentos espaciais (engenheiros, arquitetos, artistas).

Diagnóstico

Os sintomas que podem indicar a dislexia, antes de um diagnóstico multidisciplinar, só indicam um distúrbio de aprendizagem, não confirmam a dislexia. Os sintomas podem ser percebidos em casa mesmo antes da criança chegar na escola. Uma vez identificado o problema de rendimento escolar, deve-se procurar ajuda especializada.

AVALIAÇÃO MULTIDISCIPLINAR

A equipe multidisciplinar, incluindo Psicólogo, Fonoaudiólogo e Psicopedagogo Clínico inicia investigação detalhada e verifica a necessidade do parecer de outros profissionais, como Neurologista, Oftalmologista e outros, conforme o caso. É muito importante o parecer da escola, dos pais, o levantamento do histórico familiar e a evolução do paciente.

Outros fatores deverão ser descartados, como déficit intelectual, disfunções ou deficiências auditivas e visuais, lesões cerebrais (congênitas e adquiridas), desordens afetivas anteriores ao processo de fracasso escolar (com constantes fracassos escolares o disléxico irá apresentar prejuízos emocionais, mas estes são conseqüências, não causa da dislexia).

A equipe multidisciplinar deve verificar todas as possibilidades antes de confirmar ou descartar o diagnóstico de dislexia.

Essa avaliação é importante tanto na identificação das causas das dificuldades apresentadas, quanto permite orientar o encaminhamento adequado para o caso individualizado.

Não existe teste único, patognomônico (sinais/sintomas constantes, caraterísticos da doença) de dislexia.

O diagnóstico deve ser realizado por profissional (ais) treinado (s), empregando-se uma série de testes e observações, em geral, trabalhando em equipe multidisciplinar, que analisará o conjunto de manifestações de dificuldades

Testes auditivos e de visão podem ser os primeiros a serem solicitados.

Entre as avaliações mais solicitadas encontram-se testes:

Cognitivos
Inteligência
Memória auditiva e visual
Discriminação auditiva e visual
Orientação
Fluência verbal
Testes com novas tecnologias

Tratamento após o diagnóstico de Dislexia.

Uma vez diagnosticada a dislexia, segundo as particularidades de cada caso, o encaminhamento orientado permite abordagem mais eficaz e mais proveitosa, pois o profissional que assumir o caso não precisará de um tempo para identificação do problema, bem como terá ainda acesso a pareceres importantes.

Tendo conhecimento das causas das dificuldades, do potencial e a individualidade do paciente, o profissional pode utilizar a linha terapêutica que achar mais conveniente para o caso particular. Os resultados devem surgir de forma progressiva.

Em oposição à opinião de muitos se pode afirmar que o disléxico sempre contorna suas dificuldades e acha seu caminho. O disléxico também tem sua própria lógica e responde bem a situações que estejam associadas a vivências concretas.

A harmonia entre o profissional coordenador e o paciente e sua família podem ser decisivos nos resultados. O mecanismo de programação por etapas, somente passando para a seguinte quando a anterior foi devidamente absorvida, retornando às etapas anteriores sempre que necessário, deve ser bem entendido pelo paciente e familiares

Sistema Cumulativo

Os serviços de educação especial podem incluir auxílio de especialistas, tutorias individuais, aulas especiais diárias. Cada indivíduo tem necessidades diferentes, por isso o plano de tratamento deve ser individualizado. Da mesma forma, é importante o apoio psicológico positivo, já que muitos estudantes com dificuldade de aprendizado têm auto-estima baixa.

Prevenção

Os transtornos de aprendizagem tendem a incidir em famílias e a dislexia é um deles. As famílias afetadas devem fazer o máximo esforço para reconhecer precocemente a existência do problema.

Quando incide em famílias sem antecedentes, o diagnóstico pode ser feito na pré-escola, se os professores detectarem os primeiros sinais. A terapia precoce proporciona os melhores resultados.

Mitos que não podem crescer

1- A dislexia é contagiosa?
Não. Ela é usualmente hereditária.

2- Uma pessoa pode ser medianamente disléxica?
Sim. Ninguém apresenta um quadro com todos os sinais de dislexia.

3- A dislexia é uma doença?
Não.

4- A dislexia pode passar sem que se tome alguma providência?
Não. Quanto antes ela é identificada e são tomadas as medidas de tratamento, maiores podem ser os benefícios do tratamento.

FONTE: http://www.abcdasaude.com.br

A Integração do Surdo na Escola

Nem todos são iguais. As diferenças existem e precisam ser respeitadas. Quando a causa é a surdez, a comunicação fica prejudicada, já que a audição e a fala são os canais por onde a sociedade passa as suas informações. E, a realidade mostra que a diferença causada pela surdez acaba levando a marginalização social.

Para a pedagoga Márcia Leite (1969:10), a sociedade é muito discriminadora, o que ocorre em muitos casos, é a criança ser discriminada pelos colegas, pela escola ou pela própria família, que não consegue aceitar a deficiência. Qualquer coisa que se desvie do padrão idealizado de normalidade da nossa sociedade, é discriminada. Então, esse conjunto de fatores pode resultar numa dificuldade de socialização, prejudicando o desenvolvimento da criança.

A psicóloga Maria Cecília Rafael de Góes, refere em seu livro “Linguagem, surdez e educação”, o relato de uma professora formada em Educação Especial, na área de Deficiência Auditiva, sobre o problema de atuação de alunos surdos em classes regulares. Referiu-se a uma diversidade de temas, tais como: a limitação de sua própria formação profissional, os obstáculos para a integração do surdo na sociedade, a falta de colaboração da família no processo escolar e as condições institucionais para o trabalho pedagógico (recursos materiais insuficientes, instabilidade na atribuição de classes, tempo reduzido de aulas, etc.).

Entende-se como integração, a possibilidade de que as pessoas com necessidades especiais devido a deficiência ou problemas em seu desenvolvimento viva e conviva com as demais pessoas de sua comunidade. Conforme Correia (1997:23), profissional ligado a educação, este viver e conviver em sua própria comunidade é um direito e uma questão de justiça. É justo que o portador receba uma educação adequada às suas necessidades específicas, uma vez que a educação é um direito constitucional de todos os cidadãos. O princípio de integração não nega o atendimento às necessidades educativas que o educando possa apresentar.

Para tornar uma política de integração é fundamental que se alarguem as oportunidades educacionais, enfatiza p professor em educação especial Vítor da Fonseca (1995:68): “…os programas e os currículos terão de ser necessariamente diferentes, adaptados às necessidades educacionais específicas das crianças deficientes. A filosofia e o fundamento científico terão de presidir a elaboração do desenho curricular, deverão respeitar os estilos e os biorritmos preferenciais de cada criança, isto é, deverão adotar uma filosofia centrada na semelhança diferenciada e não na semelhança indiferenciada que tem caracterizado os programas escolares vigentes.”

A questão está no fato de que integrar não é só “alocar” (Góes, 1996:48) a criança na sala de ensino regular. A escola terá de adaptar-se a todas as crianças, ou melhor, a variedade humana. Como Instituição Social, não poderá reagir no sentido inverso, rejeitando ou segregando “aqueles que não aprendem como os outros”. Não se pode continuar a defender que tem de ser a criança a adaptar-se às exigências escolares, mas sim, o contrário.

Na realidade, o professor é preparado para atuar como uma criança normal, “a ouvinte”, pois todo o ambiente já está preparado para receber as crianças que ouvem e falam, todo o material terá sido escolhido para este tipo de população, que é a maioria.

No entanto, é urgente preparar todos os professores, sem exceção, para aceitarem as diferenças individuais de cada criança. Segundo Fonseca, deve-se prepará-los para abandonar os tradicionais “medos”, equipando-os com recursos educacionais inovadores e com modelos pedagógicos experimentais. Seria imprescindível também o trabalho de uma equipe multidisciplinar como: psicólogo, fonoaudiólogo e psicopedagogo.

Para Harrison Godi e Moura (1997:362), a questão que nos atinge é: que tipo de concepção de surdez e de surdo estão permeando a opção pelo processo educacional destas crianças? Por que, que no Brasil, ocorrem tão poucas pesquisas nesta área? Qual deveria ser o papel da Escola nestas questões levantadas?

Correia (1997:09) refere que a escola deverá dar condições para estas crianças. Surgindo assim, uma “nova realidade”, em que a criança com necessidades educativas especiais tem o direito de, sempre que possível, ser educada na classe regular. É a responsabilização da Escola regular pela educação de todos os alunos, independente dos problemas de aprendizagem que cada um deles possa apresentar. Mas, esta responsabilidade exige da Escola e do sistema modificações no processo ensino/aprendizagem no sentido de se encontrar respostas para um dos direitos fundamentais da toda criança – o direito a uma educação igual e de qualidade que observe as suas necessidades. É ainda freqüente, hoje em dia, encontrarmos alunos com necessidades educativas especiais sem qualquer tipo de apoio.

Correia (1997:12) afirma que as mudanças necessárias exigirão tempo, pois, quando algum fato novo surge, muda o equilíbrio conquistado, principalmente no sistema educacional. Certamente virão as dificuldades e resistências. Porém, não podemos deixar de analisar e expor estas questões para uma profunda reflexão. Também não devemos deixar de lutar pelas idéias que achamos certas, apenas por ser difícil de serem conquistadas. Afinal, a vida vale a pena enquanto há ideais a serem conquistadas.


 

“Devemos ser pacientes e esperar por métodos novos e por ocasiões para a pesquisa. Devemos estar prontos, também, para abandonar um caminho que tenhamos seguido durante certo tempo, se ele nos parecer estar caminhando para um fio incerto.” Sigmund Freud (1948)
Beyond The Pleasure Principlie
(Além do Princípio do Prazer)
(Extraído do livro “Audição em Crianças)

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Texto retirado de http://www.fonoaudiologia.com

Escrito por Fga. Maria Angélica Fischer

Autora: Fga. Maria Angélica Fischer
CRFª 6869/SC



Disgrafia

Analisada sob o ponto de vista gráfico, escrita é um movimento que fixa sinais sobre um suporte com ajuda de um instrumento próprio. É um gesto fino, combinação dos movimentos do braço e da mão inscrevendo letras que devem ser fixadas de um certo modo sobre tal suporte e, que reproduzem os sons que ouvimos ou que pronunciaríamos se disséssemos o que escrevemos. Requer, pois, de quem escreve, uma certa execução justa dos signos e uma representação dos sons imediata e exata.

Porém a organização do ato gráfico não é inata, a possibilidade de escrever que possui uma criança que processa a aprendizagem da escrita, é o resultado de lentas e essenciais aquisições no plano motor, perceptivo e simbólico.

A escrita exige de quem escreve a possibilidade de dispor do espaço gráfico segundo as regras de uso, ou seja, exercer sobre seus movimentos um controle visual permanente de modo que as letras estejam bem ajustadas nas palavras e essas sobre as linhas. Tal controle deve chegar a ser automático.

A execução motora da escrita exige maturação de Sistema Nervoso Central e Periférico e certo grau de desenvolvimento psicomotor. A tonicidade e a coordenação dos movimentos devem estar suficientemente estabelecidas para possibilitar a atividade da mão e dos dedos. Essa destreza do tipo motor se desenvolve à medida que a criança progride em sua vida escolar.

O aprendizado do grafismo da escrita é necessário porque os pequenos gestos não podem ser decididos por quem escreve, sendo um código comum às pessoas de mesma língua, o gesto deve corresponder à escrita do código. Apenas desta maneira é possível que a escrita adquira um valor de comunicação interpessoal. A escrita é um processo de caráter práxico, que ocorre quando o indivíduo realiza o traçado dos signos gráficos; e que está afetada de forma especial no transtorno disgráfico.

Por definição, disgrafia é o transtorno da escrita, de origens funcionais, que surge nas crianças com adequado desenvolvimento emocional e afetivo, onde não existem problemas de lesão cerebral, alterações sensoriais ou história de ensino deficiente do grafismo da escrita.

Portelano Pérez (1985) e Brueckner e Bond (1986) classificaram a disgrafia segundo a sua etiologia, embora tenham utilizado terminologias distintas, concordam em que há disgrafia do tipo maturativa, desenvolvida a partir de fatores próprios do desenvolvimento do indivíduo e há a disgrafia “provocada”, de causa pedagógica, cujo substrato é o ensino inadequado da escrita. Ambos, neste caso, reportam-se tanto ao excesso de exigência quanto à deficiente orientação no processo de aquisição do grafismo da escrita.

A criança disgráfica é vítima de transtornos que provém ora do plano motor, ora do plano perceptivo, ora do plano simbólico. A dificuldade de integração visual-motora dificulta a transmissão de informações visuais ao sistema motor. “A criança vê o que quer escrever, mas não consegue idealizar o plano motor”. Sua escrita é nitidamente diferente da escrita da criança normal, o que não acarreta homogeneidade no interior do grupo dos disgráficos. Disgrafia padronizada não existe, encontram-se diversos tipos de disgrafia, é como se a criança desenvolvesse seu problema de acordo com as modalidades que lhe são próprias, imprimindo-lhe estilo pessoal.

De modo geral a criança disgráfica apresenta uma série de sinais, ou manifestações como:

? má organização da página

? texto sem unidade, desordenado

? aspecto do conjunto “sujo”

? letras deformadas

? choques entre as letras

? traços de má qualidade

? letras corrigidas diversas vezes

? enlaces mal feitos

? espaços entre as linhas e palavras irregulares, linhas mal mantidas

? pouco grau de nitidez entre as letras

? dimensões exageradas (muito grandes ou pequenas)

? desproporção entre pernas e hastes.

? postura gráfica incorreta

? preensão e suporte inadequados dos instrumentos de escrita

? ritmo de escrita muito lento ou muito rápido

? dificuldades na escrita de números e letras

? dificuldades de imitar o que vê (martelar, amarrar sapatos, fazer mímicas)

? fenômenos dolorosos geralmente por hipertonia de mão e dedos

? dificuldades para copiar letras e outros símbolos pois não oferecem pista dos padrões motores que se deve usar

? desenhos distorcidos, mal colocados na folha, sem proporção ou planejamento e pobres em detalhes

? excessiva inclinação da folha ou ausência de inclinação

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Fonte: Site do Serviço de Neuropediatria do Hospital Pequeno Príncipe

http://www.neuropediatria.org.br

Escrito por Maria José Gugelmin de Camargo

Terapeuta Ocupacional e Especialista em Psicomotricidade e Psicopedagogia

22 DE OUTUBRO – DIA INTERNACIONAL DE ATENÇÃO À GAGUEIRA

Seu Filho Gagueja?”

A gagueira é um distúrbio neurológico que pode causar forte impacto negativo na vida da pessoa que gagueja. Dada a importância da comunicação na vida diária, a gagueira tende a prejudicar consideravelmente a funcionalidade do indivíduo em vários aspectos da vida, sobretudo nos âmbitos acadêmico, social e ocupacional. Apesar de ser um distúrbio que incide em 5% da população e que se torna crônico em 1% dela, a gagueira infelizmente ainda não recebe a atenção e o cuidado que necessita.

Para minimizar isto, desde 1998, em diversas partes do mundo, acontece no dia 22 de outubro o DIA INTERNACIONAL DE ATENÇÃO À GAGUEIRA. Em vários países, pessoas famosas que gaguejam dão depoimentos e ajudam a melhorar o nível de informação sobre a gagueira e os tratamentos disponíveis. Julia Roberts e Bruce Willis já participaram da campanha, contando suas experiências pessoais. Eles se juntam a outras pessoas brilhantes que, ao longo da história, também conviveram com o distúrbio: Demóstenes, Charles Darwin, Winston Churchill, Lewis Carroll, Machado de Assis, John Updike, José Saramago, entre outros.

O tema da campanha do DIA INTERNACIONAL DE ATENÇÃO À GAGUEIRA de 2010 é “Seu Filho Gagueja?”. Este tema foi escolhido para esclarecer aos pais e familiares sobre este sério distúrbio de fluência da fala e alertá-los sobre a enorme importância do atendimento precoce.

A gagueira é ainda hoje pouco entendida pela grande maioria das pessoas, e o que prevalece na maioria das vezes é o conhecimento do senso comum sobre o assunto.

O objetivo dessa campanha é oferecer informações científicas atualizadas para aumentar a compreensão de todos sobre esse distúrbio, que geralmente é visto como engraçado mas que pode ter consequências bastante graves – levando a pessoa a grande sofrimento e até mesmo ao isolamento. Esperamos com isso contribuir para que as piadas em torno do distúrbio diminuam na proporção inversa do nível de esclarecimento sobre ele, de modo a acabar com o preconceito e a ridicularização que ainda humilham e maltratam as pessoas que gaguejam e seus familiares.

No Brasil, o CEFAC – Saúde e Educação (www.cefac.br), o HSPE – Setor de Fonoaudiologia do Hospital do Servidor Público Estadual (www.iamspe.sp.gov.br), o IBF – Instituto Brasileiro de Fluência (www.gagueira.org.br), a FM-UFRJ – Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (http://www.medicina.ufrj.br) e o CFFa – Conselho Federal de Fonoaudiologia – (www.fonoaudiologia.org.br) coordenam campanhas que atingem todo o território nacional.

Na intenção de disseminar informação e esclarecimento sobre esse distúrbio que atinge cerca de dois milhões de brasileiros, dezenas de cidades promoverão atividades gratuitas para a população na semana do dia 22 de outubro. A programação oficial poderá ser acompanhada no site do IBF (www.gagueira.org.br) e do Cefac (www.cefac.br )

Fonoaudiólogos de todo o País estão envolvidos nas atividades da Campanha Nacional, que é dirigida pela Comissão Organizadora Nacional, formada pelas fonoaudiólogas Ignês Maia Ribeiro (CEFAC e IBF contato: (11) 9988.9500 ou presidência@gagueira.org.br), Eliana Maria Nigro Rocha (HSPE e IBF – contato: (11) 7482-8866 ou ibf.clinica@gmail.com, Sandra Merlo (IBF contato: (11) 9814.7401 ou sgmerlo@gmail.com) e Leila Coelho Nagib (UFRJ e IBF – contato: (21) 9342.7984 ou leilanagib.ufrj@gmail.com).

A GAGUEIRA:

De acordo com os mais recentes trabalhos científicos, a gagueira é entendida como um distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta a fluência natural da fala.

A gagueira se caracteriza por interrupções atípicas e involuntárias no fluxo da fala. Essas interrupções se apresentam em forma de repetições, hesitações, bloqueios, prolongamentos, tensões corporais e/ou orofaciais. Trata-se de um distúrbio universal, presente em todas as partes do planeta independentemente da raça, cultura, credo ou situação socioeconômica. A gagueira incide temporariamente em 4% da população e prevalece em 1% da população mundial, numa proporção de quatro pessoas do gênero masculino para uma do gênero feminino.

Na maioria dos casos, ela surge entre os dois e quatro anos de idade, e seu desenvolvimento é gradual, mas, em um terço das crianças atingidas, ela começa abruptamente. Tende a ocorrer em famílias onde há membros que gaguejam, ou que gaguejaram, em uma proporção três vezes maior do que em crianças sem histórico familial positivo.

Estudos específicos apontam para a transmissão genética na maioria dos casos. Porém, o fator genético não pode ser considerado como causa única, mas sim como predisposição para esse distúrbio. A gagueira é compreendida como um distúrbio multifatorial de base neurológica. Sabe-se também que lesões cerebrais podem causar alterações nas estruturas responsáveis pela sequencialização motora da fala, causando a gagueira.

Muitas das crianças que gaguejam poderão obter remissão total desse quadro, mas ainda não há como o leigo prever quais são as crianças que se encontram nesse grupo. E é exatamente por isso que é fundamental que se faça uma avaliação especializada e, se necessário, se inicie o tratamento o mais cedo possível. Quanto mais rápida e adequada for a intervenção terapêutica, melhores serão os resultados. O profissional a ser consultado para a avaliação e diagnóstico diferencial da gagueira é o fonoaudiólogo especializado no atendimento dos distúrbios da fluência, que tenha conhecimentos científicos e práticos sobre o tema.

Mesmo pessoas adultas que apresentam a gagueira instalada de longa data, quando em tratamento fonoaudiológico adequado, apresentam melhoras significativas, otimizando suas relações de comunicação como um todo, minimizando significativamente o distúrbio e o sofrimento interno que ele ocasiona.

A gagueira mais freqüente é a Gagueira do Desenvolvimento, que se inicia na infância e pode ir agravando. A Fonoaudiologia reconhece também outros quadros considerados como Distúrbios da Fluência: a taquilalia, a taquifemia e a gagueira adquirida. Um fonoaudiólogo especializado no tema tem competência para avaliar, fazer o diagnóstico diferencial, traçar um planejamento terapêutico adequado e ajudar o paciente a eliminar a gagueira em crianças, ou a falar de maneira mais suave e natural, sem tanta dificuldade, minimizando assim os impactos negativos do distúrbio na vida da pessoa.

Fonte: Instituto Brasileiro de Fluência – http://www.gagueira.org.br

Aluno com síndrome de Asperger é desafio para educação inclusiva

Com dificuldade de interagir, fazer amigos e tendência a se isolar, o aluno com síndrome de Asperger é um dos desafios para a educação inclusiva. A doença é considerada um tipo leve de autismo que não afeta o desenvolvimento intelectual. É comum que os “aspies” – como são chamados – tenham inteligência acima da considerada “normal.”

Saiba mais

Especialistas defendem que as crianças que apresentam este tipo de síndrome podem – e devem – frequentar escolas regulares. “As pessoas aprendem de jeitos diferentes e a pluralidade faz com que a escola fique cada vez mais interessante. Ambientes homogêneos são desinteressantes”, diz Liliane Garcez, coordenadora do curso de pós-graduação inclusiva do Instituto Vera Cruz.

Para Liliane, o papel da escola é aproveitar o potencial do aluno e canalizá-lo para os demais conteúdos da série que cursa. “É preciso aprofundar o conhecimento sobre estas síndromes para melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas envolvidas. Não cabe mais a segregação.”

Em cartaz nos cinemas, a animação “Mary e Max – Uma Amizade Diferente” mostra os problemas dos “aspies”. Na ficção, Mary, de 8 anos, uma menina gordinha e solitária, que mora na Austrália, torna-se amiga de Max, um homem de 44 anos, que tem síndrome de Asperger e vive em Nova York. Ambos têm dificuldade de fazer amigos e passam a trocar correspondências onde compartilham alegrias e decepções.

Asperger
Na animação, Max é um homem de 44 anos que tem síndrome de Asperger
(Foto: Divulgação)

Famílias

Na vida real, a professora e atual presidente da AMA (Associação de Amigos dos Autistas), em São Paulo, Sonia Maria Costa Alabarce Nardi, de 48 anos, conhece as dificuldades da síndrome. Seu filho, Guilherme Alabarce Nardi, de 15 anos, tem Asperger e passou por três escolas antes de completar 7 anos. “As escolas não estavam preparadas para recebê-lo porque ele chorava muito e não aceitava regras.”

Sonia buscou apoio na AMA, que fornecia suporte pedagógico a Guilherme e o matriculou em uma escola pequena, onde os funcionários podiam lhe dar mais atenção. “Ele não tinha facilidade de conviver com outras crianças e tivemos de nos adaptar.” Hoje, no segundo ano do ensino médio, Guilherme tem notas exemplares. “Ele é muito inteligente, tem uma memória excelente, mas a convivência ainda é um pouco difícil. São poucos os amigos.”

As escolas não estavam preparadas para recebê-lo porque ele chorava muito e não aceitava regras.”
Sonia Maria Costa Alabarce Nardi, mãe de um adolescente com Asperger

A auxiliar financeira Maria Aparecida de Santana Oliveira, de 53 anos, também tem um filho com a síndrome. Jefferson Santana de Oliveira, hoje com 23 anos, sempre estudou em colégios comuns. “Ele conseguiu acompanhar, ficava um pouco isolado, mas, aos poucos, começou a interagir. Às vezes os colegas o excluíam, mas ele gostava de ir à escola. Tinha dificuldade em matemática, mas muita facilidade para línguas.”

Concluído o ensino médio, Jefferson tem uma nova batalha: encarar a frustração de não ter passado no vestibular da Universidade de São Paulo (USP) e retomar os estudos. A mãe diz que antes o jovem quer encontrar um emprego.

Diagnóstico

O primeiro obstáculo dessas famílias é acertar o diagnóstico. Muitas vezes percorrem verdadeiras maratonas em psicólogos, psiquiatras e neurologistas que chegam a confundir a síndrome com hiperatividade ou déficit de atenção. “São sintomas sutis e muitas vezes os pais não identificam porque acham que é o jeito da criança”, afirma Cinara Zanin Perillo, psiquiatra especialista em infância e adolescência.

Outra característica da síndrome é a fixação por interesses específicos, geralmente ligados ao campo das ciências, como biologia, corpo humano, astronomia ou dinossauros.

Os “aspies” têm dificuldade de centrar o olhar em um determinado ponto e entender metáforas. Todas as expressões, para eles, têm sentido literal.

A síndrome de Asperger é causada por alterações genéticas associadas a fatores hereditários. É mais comum em meninos e os indícios podem ser percebidos a partir dos 3 anos. Segundo Cinara, é comum que os portadores desenvolvam outros transtornos psiquiátricos. Não há cura.

Vanessa Fajardo Do G1, em São Paulo

Fonte: http://www.proac.uff.br

Núcleo de Acessibilidade e Inclusão da Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro.