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Algumas estratégias e orientações para auxiliar o desempenho escolar e a vida social de crianças e adolescentes com diagnóstico de TDAH

LEITURA (Rotta, Ohlweiler e Riesgo, 2006)

Importante: A maioria das dificuldades de leitura não está na decodificação e sim na compreensão leitora. Algumas destas estratégias auxiliam também para um processo de estudo dirigido, por exemplo para uma prova, em casa.

  1. Realização de leitura em voz alta;
  2. Ilustração de histórias lidas;
  3. Levantar aspectos importantes do texto que será lido auxiliando a seleção de informações importantes;
  4. Discutir o assunto antes da leitura, levantando conhecimentos prévios ou hipóteses sobre o assunto;
  5. Discutir depois da leitura, enfatizando o que foi relevante do texto;
  6. Utilizar gravadores. Podem ser usados tanto para a sia leitura como para a leitura de colegas.
  7. Estimular o uso de livros diversificados abordando o assunto de formas variadas.  A criança de forma geral, e principalmente a criança com TDAH, é bastante motivada por meio das novidades (usar vários suportes de texto).

ESCRITA (Rotta, Ohlweiler e Riesgo, 2006)

  1. Trabalhar com atividades de consciência fonológica (rimas, parlendas, trava-línguas, prolongamento dos sons das letras como F – V – J – G – X – Z – M – N – vogais);
  2. Incentivar a construção de narrativas orais que podem  favorecer a construção de esquemas que auxiliam a organização do pensamento e a coerência, conexão de ideias.

GRAFIA (Chamat, 2008)

Distúrbio de integração visual: não conseguem transmitir as informações visuais ao sistema motor, onde causa desorganização em momentos de escrita (expressão gráfica do pensamento). Algumas crianças/adolescentes com TDAH podem apresentar este distúrbio o que gera um traçado da letra lento, ou seja, demora ao copiar ou escrever uma redação. Nestes momentos a criança/adolescente tente a “fugir” desta atividade, pois se torna estressante, busca recursos como conversar, desenhar, entre outros. Sugere-se:

  1. Auxiliar a elaboração de resumos, esquemas e mapas mentais;
  2. Não cobrar cópias extensas e permitir o uso de gravador durante as explicações;
  3. Se possível até o uso de smartphones ou tablets, como suporte nas atividades de escrita (neste caso para as crianças/adolescentes que já estão completamente alfabetizados).

ORTOGRAFIA (Rotta, Ohlweiler e Riesgo, 2006)

  1. Permitir, sempre que possível, o uso do computador, smartphone, pois essa ferramenta assinala automaticamente os erros cometidos, auxiliando a identificação e a correção;
  2. Incentivar o uso do dicionário e a criação de um dicionário particular;
  3. Evitar correções de erros quando a atividade não se referir à Língua Portuguesa;
  4. Evitar o uso de canetas vermelhas poluindo as atividades com correções. Estas além de gerarem um sentimento de incompetência, não contribuem para a melhora da ortografia;
  5. Valorizar a escrita e explicitar seus ganhos e suas expectativas quando das aquisições futuras.
  6. Buscar estratégias diversificadas (por exemplo, com professores de Língua Portuguesa) para trabalhar a ortografia (trocas, inversões e omissões).

PRODUÇÃO DE TEXTO (Rotta, Ohlweiler e Riesgo, 2006)

Para garantir a construção de competências na produção textual é necessário atenção, planejamento e capacidade de execução, áreas afetadas para quem tem TDAH. Sugere-se:

  1. Realizar atividades que foquem a organização estrutural de cada gênero;
  2. Traçar passos para organizar o material escrito;
  3. Incentivar a releitura do material e a consequente revisão das produções;
  4. Ter claro que revisar não é corrigir ortografia e sim melhorar a produção, deixando o texto atrativo para o leitor. Tratar a produção como algo social dando função à atividade.

MATEMÁTICA

Uma das dificuldades do aluno com TDAH é a regulação da atenção, a exigência de mais memória e do planejamento, para que de um determinado problema a criança possa coordenar os passos/etapas e fazer a seleção correta dos dados, é onde se concentra a sua dificuldade na matemática. Algumas orientações se tornam significativas como:

  1. Solicitar que sejam grifados os passos ou o que é desejado da atividade;
  2. Oferecer uma folha de papel extra para que possa realizar os cálculos. O trabalho mental deve ser estimulado em algumas situações, mas nunca nas avaliações;
  3. Iniciar os assuntos rememorando conteúdos necessários à nova aquisição que será apresentada em seguida;
  4. Oferecer material concreto/manipulável;
  5. Incentivar a revisão das atividades e das avaliações.

Para finalizar é muito importante para o sucesso da criança que o trabalho de equilibração da atenção seja proporcionado tanto em âmbito escolar como familiar. Assim como, auxílio de profissionais que possam conduzir conflitos e condutas, juntamente com a família e escola numa perspectiva da criação de uma rotina estruturante, equilibrada e definida. A família estará contribuindo estabelecendo regras claras e objetivas. A criança com TDAH necessita do auxílio de um adulto equilibrado, que consiga ouvir e também estabelecer limites claros e ponderados, pois sabe-se que a paciência e a tolerância nestas crianças sempre está num limiar muito sutil. Pequenos erros e deslizes devem ser superados com tranquilidade para que não aconteça uma cobrança excessiva e um aumento na ansiedade e na frustração. A flexibilidade e o bom senso são cruciais no trabalho com as crianças/adolescentes com TDAH.

FONTE: SAMPAIO, Simaia (org), FREITAS, Ivana Braga. TRANSTORNOS E DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM: entendendo melhor os alunos com necessidades educativas especiais. Rio de Janeiro: 2 ed. Wak Editora, 2014, p.155 – 161.

Eliane Costa Kretzer

Psicopedagoga do SEFOPPE

Gaspar, 22 de junho de 2017.

TDAH – Transtorno Déficit Atenção e Hiperatividade

Estudando sobre os alunos com TDAH, encontrei um excelente e explicativo material para professores, coordenadores e mesmo a família sobre como trabalhar e lidar com esses alunos. É muito importante que todos os profissionais que lidam com crianças com este transtorno pesquisem e tenham informações seguras para que o trabalho se desenvolva de forma qualitativa e dentro das expectativas de cada sujeito envolvido.

Acredito que somente com informação, aceitação e trocas de experiências vamos avançar no trabalho pedagógico com as crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem. Boa leitura!

Abraços!

Eliane Costa Kretzer

Psicopedagoga – SEFOPPE – 2017.

Como o professor pode ajudar no tratamento do TDAH?

Qual o papel da escola e do professor no acompanhamento da criança com TDAH?

É comum os professores perguntarem: se o TDAH é uma doença, porque o professor teria responsabilidade sobre o tratamento? Como contribuir para a melhora da criança? Como descrito, o TDAH não é um transtorno que afeta apenas o comportamento da criança. Na medida em que afeta também a capacidade para a aprendizagem, a escola precisa assumir o importante papel de organizar os processos de ensino de forma a favorecer ao máximo a aprendizagem. Para tal, é necessário que direção, coordenações, equipe técnica e professores se unam para planejar e implementar as técnicas e estratégias de ensino que melhor atendam às necessidades dos alunos que se encontram sob sua responsabilidade.

O mais importante é o professor conhecer o TDAH e reconhecer que essas crianças necessitam de ajuda. Além disso, utilizar estratégias que possam ajudá-las no aprendizado também é fundamental para o tratamento dos portadores de TDAH.

A seguir apresentamos algumas estratégias para o manejo de crianças com TDAH no dia a dia da escola. Essas estratégias fazem parte de um programa de treinamento de manejo comportamental para professores e outros profissionais da área de educação, desenvolvido pela Equipe do Projeto Inclusão Sustentável (PROIS).

Recebendo e acolhendo o aluno:

• Identifique quais os talentos que seu aluno possui. Estimule, aprove, encoraje e ajude no desenvolvimento deste.

• Elogie sempre que possível e minimize ao máximo evidenciar os fracassos.

• O prejuízo à autoestima frequentemente é o aspecto mais devastador para o TDAH.

• O prazer está diretamente relacionado à capacidade de aprender. Seja criativo e afetivo buscando estratégias que estimulem o interesse do aluno para que este encontre prazer na sala de aula.

• Solicite ajuda sempre que necessário. Lembre-se que o aluno com TDAH conta com profissionais especializados neste transtorno.

• Evite o estigma conversando com seus alunos sobre as necessidades específicas de cada um, com transtorno ou não. Organizando o espaço – Monitorando o Processo

• A rotina e organização são elementos fundamentais para o desenvolvimento dos alunos, principalmente para os portadores de TDAH. A organização externa refletirá diretamente em uma maior organização interna. Assim, alertas e lembretes serão de extrema valia.

• Quanto mais próximo de você e mais distante de estímulos distratores, maior benefício ele poderá alcançar.

• Estabeleça combinados. Estes precisam ser claros e diretos. Lembre-se que ele se tornará mais seguro se souber o que se espera dele.

• Deixe claras as regras e os limites inclusive prevendo consequências ao descumprimento destes. Seja seguro e firme na aplicação das punições quando necessárias, optando por uma modalidade educativa, por exemplo, em situações de briga no parque, afaste-o do conflito porém mantenha-o no ambiente para que ele possa observar como seus pares interagem.

• Avalie diariamente com seu aluno o seu comportamento e desempenho estimulando a autoavaliação.

• Informe frequentemente os progressos alcançados por seu aluno, buscando estimular avanços ainda maiores.

• Dê ênfase a tudo o que é permitido e valorize cada ação dessa natureza.

• Ajude seu aluno a descobrir por si próprio as estratégias mais funcionais.

• Estimule que seu aluno peça ajuda e dê auxílios apenas quando necessário. Procedimentos facilitadores

• Estabeleça contato visual sempre que possível, isto possibilitará uma maior sustentação da atenção.

• Proponha uma programação diária e tente cumpri-la. Se possível, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) 30 além de falar coloque-a no quadro. Em caso de mudanças ou situações que fogem a rotina, comunique o mais previamente possível.

• A repetição é um forte aliado na busca pelo melhor desempenho do aluno.

• Estimule o desenvolvimento de técnicas que auxiliem a memorização. Use listas, rimas, músicas, etc.

• Determine intervalos entre as tarefas como forma de recompensa pelo esforço feito. Esta medida poderá aumentar o tempo da atenção concentrada e redução da impulsividade.

• Combine saídas de sala estratégicas e assegure o retorno. Para tanto, conte com o pessoal de apoio da escola.

• Monitore o grau de estimulação proporcionado por atividade. Lembre-se que muitas vezes o aluno com TDAH pode alcançar um grau de excitabilidade maior do que o previsto por você, criando situações de difícil controle.

• Adote um sistema de pontuação. Incentivos e recompensas, em geral, alcançam bons resultados.

Integrando ao grupo:

• A integração ao grupo será um fator de crescimento. Esteja atento ao grau de aceitação da turma em relação a este aluno.

• Identifique possíveis parceiros de trabalho. Grandes conquistas podem ser obtidas através do contato com os pares. • Sua capacidade de liderança, improviso e criatividade são ferramentas que podem auxiliar no nivelamento da atenção do grupo e em especial do aluno com TDAH. Use o humor sempre que possível.

Realizando tarefas, testes e provas:

• As instruções devem ser simples. Tente evitar mais de uma consigna por questão.

• Destaque palavras-chaves fazendo uso de cores, sublinhado ou negrito.

• Estimule o aluno destacar e sublinhar as informações importantes contidas nos textos e enunciados.

• Evite atividades longas, subdividindo-as em tarefas menores. Reduza o sentimento de “eu nunca serei capaz de fazer isso”.

• Mescle tarefas com maior grau de exigência com as de menor.

• Incentive a leitura e compreensão por tópicos.

• Utilize procedimentos alternativos como testes orais, uso do computador, máquina de calcular, dentre outros.

• Estimule a prática de fazer resumos. Isto facilita a estruturação das ideias e fixação do conteúdo.

• Oriente o aluno a como responder provas de múltiplas escolhas ou abertas.

• Estenda o tempo para a execução de tarefas, testes e provas.

• A agenda pode contribuir na organização do aluno e na comunicação entre escola e família.

• Incentive a revisão das tarefas e provas. Contato com a família, deveres e trabalhos em casa

• Mantenha constante contato com a família. Tente utilizar as informações fornecidas por ela com o objetivo de compreender o seu aluno melhor.

• Procure nesses encontros enfatizar os ganhos e não apenas pontuar as dificuldades.

• Evite chamá-los apenas quando há problemas.

• Ajude seu aluno a fazer um cronograma de tarefas e estudos de casa. Isto poderá contribuir para minimizar a tendência a deixar tudo para depois.

• Tente anunciar previamente os temas e familiarizar o aluno com situações que posteriormente serão vivenciadas.

• Estimule a atividade física.

Como saber mais sobre TDAH?

Atualmente, já existe bastante material disponível sobre TDAH em formato de livros, livretos, aulas em vídeo, palestras na internet. A quantidade de informações em todas as fontes de comunicação é tão grande que é preciso ter muito cuidado ao tentar se familiarizar com um tema. Esse cuidado é necessário principalmente em relação a duas questões: – Como determinar se algo publicado (em revistas, livros, jornais, rádio, TV, internet, etc.) realmente traz informações confiáveis? – Mesmo sendo confiável, como selecionar o que ler e/ou estudar considerando que o volume de informações é cada vez maior e o tempo para aperfeiçoamento cada vez menor? Em relação à primeira pergunta, é importante estar atento às qualificações do interlocutor. Para páginas de internet, o ideal é buscar sempre os sites ou as páginas que representam uma associação, tais como o site da Associação Brasileira de Déficit de Atenção, ABDA (www.tdah.org). Caso queira saber informações sobre a confiabilidade de outros sites ou se existe fundamentação científica para qualquer afirmação que tenha lido ou que tenha ouvido em uma entrevista, é possível escrever um e-mail para a ABDA perguntando a opinião da associação sobre o assunto. Lembre que informação é um pouco como alimento, ou seja, dependendo da qualidade nos fará bem ou mal.

FONTE:http://www.tdah.org.br/images/stories/site/pdf/tdah_uma_conversa_com_educadores.pdf.

Acesso em 21/03/2017, às 13h53min.

Drogas Para Tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção Com Hiperatividade Têm Uso Banalizado

Droga para hiperativos tem uso banalizado – Especialistas atribuem explosão de vendas à dificuldade de diagnóstico aliada à impaciência de pais e professores

O medicamento usado no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) – vendido no País como Ritalina (Novartis) e Concerta (Jassen-Cilag) – está entre as substâncias controladas mais consumidas no País. Entre 2000 e 2008, o número de caixas vendidas passou de 71 mil para 1,147 milhão – aumento de 1.616%. A alta no consumo veio acompanhada de questionamentos sobre a banalização do uso do remédio à base de metilfenidato entre crianças e adolescentes.

Alguns especialistas apontam a demanda reprimida por tratamento que existia e ainda existe no Brasil como uma explicação para o inchaço nas vendas. Para outros, o fenômeno seria resultado de diagnósticos malfeitos, e crianças que simplesmente não se encaixam no padrão de aprendizagem e comportamento estariam sendo “domadas” à base de psicotrópicos. Reportagem de Karina Toledo, Mariana Mandelli e Sergio Neves, no O Estado de S.Paulo.
O que alimenta ainda mais a polêmica é a dificuldade de diagnosticar o TDAH. Não há um exame definitivo. Os médicos se baseiam em relatos subjetivos de pais e professores sobre o comportamento da criança e num questionário com 18 sintomas relativamente comuns entre jovens, como falar em demasia, interromper conversas e dificuldade para esperar.

“O diagnóstico deve ser feito por um médico treinado, mas envolve também outros especialistas, como psicólogo, psicomotricista e fonoaudiólogo. É preciso descartar outros problemas de saúde que possam afetar o comportamento e o aprendizado”, explica o psiquiatra infantil Francisco Assumpção, da Universidade de São Paulo (USP). “Mas muitas vezes os critérios são preenchidos pela própria escola ou até mesmo pelos pais, que me procuram apenas para pedir o remédio. Ora, não sou fábrica de receita.”

Nem todo médico é tão rigoroso. O analista legislativo Luís Fernando Leite dos Santos conta que sua filha de 16 anos foi recentemente diagnosticada como portadora de TDAH por ter apresentado alterações de humor e queda de rendimento no último bimestre escolar. “A mãe procurou um neurologista já convencida do problema. Embora o relatório da escola afirmasse que o nível de dispersão nas aulas não era tão relevante, o médico receitou o remédio e ainda disse que eu poderia pegá-lo no posto de saúde”, diz o pai, inconformado. “Uma adolescente que está namorando pela primeira vez tem todos os motivos para estar avoada. Mas a mãe não admite que ela repita de ano.”

No caso do garoto João Petrika, de 12 anos, a simples mudança de escola fez milagres. Há cerca de quatro anos ele foi diagnosticado como hiperativo e ingressou num programa de tratamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Fez terapia e tomou remédios. Mas o desempenho escolar só melhorou neste ano. “Antes ele fazia de tudo para evitar a escola. Agora que mudou de colégio, tem apenas três faltas”, conta o pai Antonio Petrika, segundo o qual o tratamento na Unifesp ajudou muito. Mas João, há dois anos sem remédios, tem outra explicação para a mudança de comportamento. “Gosto mais desta escola porque os professores são melhores. Na anterior, ficavam gritando o tempo todo. Eu ficava nervoso e não queria fazer mais nada.”

Na moda. O TDAH é um dos transtornos mentais mais comuns em crianças e se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Estudos indicam que a prevalência na população é de 5%. Isso significa que numa sala de aula com 40 alunos, pelo menos 2 teriam a doença.

Mas em algumas escolas o número de alunos em tratamento é bem maior que o estimado (mais informações nesta página). “A dificuldade de aprendizado passou a ser sinônimo de problema com a criança, quando às vezes o problema é da escola”, afirma Assumpção. Escola ruim, continua, não é só aquela que não ensina direito, mas também aquela que não respeita o ritmo biológico de cada criança. “Exigir que se aprenda a escrever com 4 anos, por exemplo, é um absurdo”, diz o médico.

Para o chefe da psiquiatria infantil da Santa Casa do Rio, Fábio Barbirato, os excessos existem, mas estão restritos às grandes metrópoles. “Nos locais mais pobres do País ainda há muita criança com TDAH sem tratamento”, diz.

A ideia de que os jovens estão sendo supermedicados, afirma Guilherme Polanczyk, psiquiatra especialista em infância e adolescência e professor da USP, está baseada numa parcela pequena da população. “Você percebe o aumento do consumo nas classes mais ricas, que têm mais acesso a tratamento.”

Tanto Barbirato como Polanczyk defendem os medicamentos à base de metilfenidato como primeira escolha de tratamento para TDAH. “Psicoterapia ajuda, mas controlar os impulsos e focar a atenção só se consegue com remédios”, diz Polanczyk.

Ambos também concordam que a falta de tratamento pode deixar o doente mais sujeito a comportamentos de risco, como usar drogas, dirigir de forma imprudente e se envolver em brigas.

“Não podemos demonizar o remédio”, afirma Iane Kestelman, presidente da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). “Quando se tem mais acesso à informação sobre a doença, é natural que se aumente o uso da medicação. Mas essa conta não deve ser paga pelo portador de TDAH.”

EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS

Causas
A genética tem papel fundamental, mas fatores ambientais como fumo na gestação e baixo peso no nascimento podem estar envolvidos.

Três perfis
Há o tipo predominantemente hiperativo, outro principalmente desatento e um terceiro tipo combinado.

Gênero
O transtorno é três vezes mais comum em meninos, mas o tipo desatento é mais frequente nas meninas.

Polêmica chega à escola

É na escola, onde a criança desenvolve grande parte de seu processo de socialização, que o uso da Ritalina vem sendo mais percebido. O Estado ouviu relatos de educadores que confirmam a incidência do uso do medicamento em até 18% dos alunos de uma mesma sala de aula. Para os professores, há casos em que o remédio é realmente necessário – como nos de alunos hiperativos -, mas a banalização é uma realidade cotidiana.

“A causa disso é o imediatismo de muitos pais e neurologistas, que querem medidas rápidas”, afirma Raquel (nome fictício), de 48 anos, professora de ciências de uma escola particular de classe média alta.

Alguns educadores dizem que o uso indiscriminado do remédio está vinculado à dificuldade que algumas famílias têm de impor limites aos filhos. “É comum ouvirmos coisas do tipo: “Não sei o que faço com meu filho. Ele está tomando medicação, mas mesmo assim não sei o que fazer””, conta Isadora (nome fictício), de 43 anos, professora de história do ensino fundamental .

“Ouço muitos pais falando coisas assim: “Meu filho tem 13 anos e mudou muito. Vou levá-lo ao neurologista e ao psiquiatra.” Ele tem 13 anos, é claro que mudou: está na idade de ser agitado”, diz a professora de história Larissa (nome fictício), de 32 anos. “Se criassem uma escola que ensinasse os pais a educarem suas crianças, seria um sucesso. Porque muitos deles priorizam a carreira e, quando percebem mudanças nos filhos, levam direto ao médico.”

As escolas ouvidas pela reportagem afirmam não ser contra o medicamento – o principal desafio, segundo elas, é mostrar aos pais que é possível tentar métodos menos invasivos, como terapia e atividades físicas. “É uma questão de motivação, de incentivar a autonomia dessa criança”, afirma Birgit Mobus, psicopedagoga da Escola Suíço-Brasileira.

Necessidade. “A Ritalina é uma droga que deixa dependente, além do aluno, a família e o professor. Todos se acostumam com o equilíbrio apresentado pela criança sob efeito dela”, afirma Silvio Barini Pinto, diretor do Colégio São Domingos, na zona oeste paulistana. “Temos de cuidar para não favorecer sua indicação.”

A coordenadora da orientação educacional do Bandeirantes, Vera Lucia Malato, concorda. “Quanto mais se retardar o uso do medicamento, melhor”, opina.

Especialistas afirmam que a Ritalina não deve ser descartada quando há diagnóstico preciso. “Meus filhos sofreram demais: mudaram de escola, repetiram de ano, tudo. Comprei essa luta por eles”, conta Iane Kestelman, presidente da ABDA. “A medicação, usada apropriadamente, pode ser muito benéfica.”

A Ritalina melhorou a vida da filha de 9 anos da fonoaudióloga Salete (nome fictício), de 39 anos, “Ela sempre foi dispersa, mas seu rendimento na escola vinha caindo demais. Tentamos de tudo, até que foi diagnosticado o TDAH. A melhora dela é impressionante: está mais feliz e suas notas estão acima da média”, conta a mãe, que, apesar de ter sido resistente à medicação, não se arrepende.

Em 2009: 527.896 caixas de metilfenidato foram vendidas em farmácias que aderiram ao programa da Anvisa de medicamentos controlados (60% do País); o dado não inclui as unidades distribuídas pelo SUS.

Fonte: www.ecodebate.com.br