Arquivo da categoria: ATUALIDADES

Algumas estratégias e orientações para auxiliar o desempenho escolar e a vida social de crianças e adolescentes com diagnóstico de TDAH

LEITURA (Rotta, Ohlweiler e Riesgo, 2006)

Importante: A maioria das dificuldades de leitura não está na decodificação e sim na compreensão leitora. Algumas destas estratégias auxiliam também para um processo de estudo dirigido, por exemplo para uma prova, em casa.

  1. Realização de leitura em voz alta;
  2. Ilustração de histórias lidas;
  3. Levantar aspectos importantes do texto que será lido auxiliando a seleção de informações importantes;
  4. Discutir o assunto antes da leitura, levantando conhecimentos prévios ou hipóteses sobre o assunto;
  5. Discutir depois da leitura, enfatizando o que foi relevante do texto;
  6. Utilizar gravadores. Podem ser usados tanto para a sia leitura como para a leitura de colegas.
  7. Estimular o uso de livros diversificados abordando o assunto de formas variadas.  A criança de forma geral, e principalmente a criança com TDAH, é bastante motivada por meio das novidades (usar vários suportes de texto).

ESCRITA (Rotta, Ohlweiler e Riesgo, 2006)

  1. Trabalhar com atividades de consciência fonológica (rimas, parlendas, trava-línguas, prolongamento dos sons das letras como F – V – J – G – X – Z – M – N – vogais);
  2. Incentivar a construção de narrativas orais que podem  favorecer a construção de esquemas que auxiliam a organização do pensamento e a coerência, conexão de ideias.

GRAFIA (Chamat, 2008)

Distúrbio de integração visual: não conseguem transmitir as informações visuais ao sistema motor, onde causa desorganização em momentos de escrita (expressão gráfica do pensamento). Algumas crianças/adolescentes com TDAH podem apresentar este distúrbio o que gera um traçado da letra lento, ou seja, demora ao copiar ou escrever uma redação. Nestes momentos a criança/adolescente tente a “fugir” desta atividade, pois se torna estressante, busca recursos como conversar, desenhar, entre outros. Sugere-se:

  1. Auxiliar a elaboração de resumos, esquemas e mapas mentais;
  2. Não cobrar cópias extensas e permitir o uso de gravador durante as explicações;
  3. Se possível até o uso de smartphones ou tablets, como suporte nas atividades de escrita (neste caso para as crianças/adolescentes que já estão completamente alfabetizados).

ORTOGRAFIA (Rotta, Ohlweiler e Riesgo, 2006)

  1. Permitir, sempre que possível, o uso do computador, smartphone, pois essa ferramenta assinala automaticamente os erros cometidos, auxiliando a identificação e a correção;
  2. Incentivar o uso do dicionário e a criação de um dicionário particular;
  3. Evitar correções de erros quando a atividade não se referir à Língua Portuguesa;
  4. Evitar o uso de canetas vermelhas poluindo as atividades com correções. Estas além de gerarem um sentimento de incompetência, não contribuem para a melhora da ortografia;
  5. Valorizar a escrita e explicitar seus ganhos e suas expectativas quando das aquisições futuras.
  6. Buscar estratégias diversificadas (por exemplo, com professores de Língua Portuguesa) para trabalhar a ortografia (trocas, inversões e omissões).

PRODUÇÃO DE TEXTO (Rotta, Ohlweiler e Riesgo, 2006)

Para garantir a construção de competências na produção textual é necessário atenção, planejamento e capacidade de execução, áreas afetadas para quem tem TDAH. Sugere-se:

  1. Realizar atividades que foquem a organização estrutural de cada gênero;
  2. Traçar passos para organizar o material escrito;
  3. Incentivar a releitura do material e a consequente revisão das produções;
  4. Ter claro que revisar não é corrigir ortografia e sim melhorar a produção, deixando o texto atrativo para o leitor. Tratar a produção como algo social dando função à atividade.

MATEMÁTICA

Uma das dificuldades do aluno com TDAH é a regulação da atenção, a exigência de mais memória e do planejamento, para que de um determinado problema a criança possa coordenar os passos/etapas e fazer a seleção correta dos dados, é onde se concentra a sua dificuldade na matemática. Algumas orientações se tornam significativas como:

  1. Solicitar que sejam grifados os passos ou o que é desejado da atividade;
  2. Oferecer uma folha de papel extra para que possa realizar os cálculos. O trabalho mental deve ser estimulado em algumas situações, mas nunca nas avaliações;
  3. Iniciar os assuntos rememorando conteúdos necessários à nova aquisição que será apresentada em seguida;
  4. Oferecer material concreto/manipulável;
  5. Incentivar a revisão das atividades e das avaliações.

Para finalizar é muito importante para o sucesso da criança que o trabalho de equilibração da atenção seja proporcionado tanto em âmbito escolar como familiar. Assim como, auxílio de profissionais que possam conduzir conflitos e condutas, juntamente com a família e escola numa perspectiva da criação de uma rotina estruturante, equilibrada e definida. A família estará contribuindo estabelecendo regras claras e objetivas. A criança com TDAH necessita do auxílio de um adulto equilibrado, que consiga ouvir e também estabelecer limites claros e ponderados, pois sabe-se que a paciência e a tolerância nestas crianças sempre está num limiar muito sutil. Pequenos erros e deslizes devem ser superados com tranquilidade para que não aconteça uma cobrança excessiva e um aumento na ansiedade e na frustração. A flexibilidade e o bom senso são cruciais no trabalho com as crianças/adolescentes com TDAH.

FONTE: SAMPAIO, Simaia (org), FREITAS, Ivana Braga. TRANSTORNOS E DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM: entendendo melhor os alunos com necessidades educativas especiais. Rio de Janeiro: 2 ed. Wak Editora, 2014, p.155 – 161.

Eliane Costa Kretzer

Psicopedagoga do SEFOPPE

Gaspar, 22 de junho de 2017.

TDAH – Transtorno Déficit Atenção e Hiperatividade

Estudando sobre os alunos com TDAH, encontrei um excelente e explicativo material para professores, coordenadores e mesmo a família sobre como trabalhar e lidar com esses alunos. É muito importante que todos os profissionais que lidam com crianças com este transtorno pesquisem e tenham informações seguras para que o trabalho se desenvolva de forma qualitativa e dentro das expectativas de cada sujeito envolvido.

Acredito que somente com informação, aceitação e trocas de experiências vamos avançar no trabalho pedagógico com as crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem. Boa leitura!

Abraços!

Eliane Costa Kretzer

Psicopedagoga – SEFOPPE – 2017.

Como o professor pode ajudar no tratamento do TDAH?

Qual o papel da escola e do professor no acompanhamento da criança com TDAH?

É comum os professores perguntarem: se o TDAH é uma doença, porque o professor teria responsabilidade sobre o tratamento? Como contribuir para a melhora da criança? Como descrito, o TDAH não é um transtorno que afeta apenas o comportamento da criança. Na medida em que afeta também a capacidade para a aprendizagem, a escola precisa assumir o importante papel de organizar os processos de ensino de forma a favorecer ao máximo a aprendizagem. Para tal, é necessário que direção, coordenações, equipe técnica e professores se unam para planejar e implementar as técnicas e estratégias de ensino que melhor atendam às necessidades dos alunos que se encontram sob sua responsabilidade.

O mais importante é o professor conhecer o TDAH e reconhecer que essas crianças necessitam de ajuda. Além disso, utilizar estratégias que possam ajudá-las no aprendizado também é fundamental para o tratamento dos portadores de TDAH.

A seguir apresentamos algumas estratégias para o manejo de crianças com TDAH no dia a dia da escola. Essas estratégias fazem parte de um programa de treinamento de manejo comportamental para professores e outros profissionais da área de educação, desenvolvido pela Equipe do Projeto Inclusão Sustentável (PROIS).

Recebendo e acolhendo o aluno:

• Identifique quais os talentos que seu aluno possui. Estimule, aprove, encoraje e ajude no desenvolvimento deste.

• Elogie sempre que possível e minimize ao máximo evidenciar os fracassos.

• O prejuízo à autoestima frequentemente é o aspecto mais devastador para o TDAH.

• O prazer está diretamente relacionado à capacidade de aprender. Seja criativo e afetivo buscando estratégias que estimulem o interesse do aluno para que este encontre prazer na sala de aula.

• Solicite ajuda sempre que necessário. Lembre-se que o aluno com TDAH conta com profissionais especializados neste transtorno.

• Evite o estigma conversando com seus alunos sobre as necessidades específicas de cada um, com transtorno ou não. Organizando o espaço – Monitorando o Processo

• A rotina e organização são elementos fundamentais para o desenvolvimento dos alunos, principalmente para os portadores de TDAH. A organização externa refletirá diretamente em uma maior organização interna. Assim, alertas e lembretes serão de extrema valia.

• Quanto mais próximo de você e mais distante de estímulos distratores, maior benefício ele poderá alcançar.

• Estabeleça combinados. Estes precisam ser claros e diretos. Lembre-se que ele se tornará mais seguro se souber o que se espera dele.

• Deixe claras as regras e os limites inclusive prevendo consequências ao descumprimento destes. Seja seguro e firme na aplicação das punições quando necessárias, optando por uma modalidade educativa, por exemplo, em situações de briga no parque, afaste-o do conflito porém mantenha-o no ambiente para que ele possa observar como seus pares interagem.

• Avalie diariamente com seu aluno o seu comportamento e desempenho estimulando a autoavaliação.

• Informe frequentemente os progressos alcançados por seu aluno, buscando estimular avanços ainda maiores.

• Dê ênfase a tudo o que é permitido e valorize cada ação dessa natureza.

• Ajude seu aluno a descobrir por si próprio as estratégias mais funcionais.

• Estimule que seu aluno peça ajuda e dê auxílios apenas quando necessário. Procedimentos facilitadores

• Estabeleça contato visual sempre que possível, isto possibilitará uma maior sustentação da atenção.

• Proponha uma programação diária e tente cumpri-la. Se possível, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) 30 além de falar coloque-a no quadro. Em caso de mudanças ou situações que fogem a rotina, comunique o mais previamente possível.

• A repetição é um forte aliado na busca pelo melhor desempenho do aluno.

• Estimule o desenvolvimento de técnicas que auxiliem a memorização. Use listas, rimas, músicas, etc.

• Determine intervalos entre as tarefas como forma de recompensa pelo esforço feito. Esta medida poderá aumentar o tempo da atenção concentrada e redução da impulsividade.

• Combine saídas de sala estratégicas e assegure o retorno. Para tanto, conte com o pessoal de apoio da escola.

• Monitore o grau de estimulação proporcionado por atividade. Lembre-se que muitas vezes o aluno com TDAH pode alcançar um grau de excitabilidade maior do que o previsto por você, criando situações de difícil controle.

• Adote um sistema de pontuação. Incentivos e recompensas, em geral, alcançam bons resultados.

Integrando ao grupo:

• A integração ao grupo será um fator de crescimento. Esteja atento ao grau de aceitação da turma em relação a este aluno.

• Identifique possíveis parceiros de trabalho. Grandes conquistas podem ser obtidas através do contato com os pares. • Sua capacidade de liderança, improviso e criatividade são ferramentas que podem auxiliar no nivelamento da atenção do grupo e em especial do aluno com TDAH. Use o humor sempre que possível.

Realizando tarefas, testes e provas:

• As instruções devem ser simples. Tente evitar mais de uma consigna por questão.

• Destaque palavras-chaves fazendo uso de cores, sublinhado ou negrito.

• Estimule o aluno destacar e sublinhar as informações importantes contidas nos textos e enunciados.

• Evite atividades longas, subdividindo-as em tarefas menores. Reduza o sentimento de “eu nunca serei capaz de fazer isso”.

• Mescle tarefas com maior grau de exigência com as de menor.

• Incentive a leitura e compreensão por tópicos.

• Utilize procedimentos alternativos como testes orais, uso do computador, máquina de calcular, dentre outros.

• Estimule a prática de fazer resumos. Isto facilita a estruturação das ideias e fixação do conteúdo.

• Oriente o aluno a como responder provas de múltiplas escolhas ou abertas.

• Estenda o tempo para a execução de tarefas, testes e provas.

• A agenda pode contribuir na organização do aluno e na comunicação entre escola e família.

• Incentive a revisão das tarefas e provas. Contato com a família, deveres e trabalhos em casa

• Mantenha constante contato com a família. Tente utilizar as informações fornecidas por ela com o objetivo de compreender o seu aluno melhor.

• Procure nesses encontros enfatizar os ganhos e não apenas pontuar as dificuldades.

• Evite chamá-los apenas quando há problemas.

• Ajude seu aluno a fazer um cronograma de tarefas e estudos de casa. Isto poderá contribuir para minimizar a tendência a deixar tudo para depois.

• Tente anunciar previamente os temas e familiarizar o aluno com situações que posteriormente serão vivenciadas.

• Estimule a atividade física.

Como saber mais sobre TDAH?

Atualmente, já existe bastante material disponível sobre TDAH em formato de livros, livretos, aulas em vídeo, palestras na internet. A quantidade de informações em todas as fontes de comunicação é tão grande que é preciso ter muito cuidado ao tentar se familiarizar com um tema. Esse cuidado é necessário principalmente em relação a duas questões: – Como determinar se algo publicado (em revistas, livros, jornais, rádio, TV, internet, etc.) realmente traz informações confiáveis? – Mesmo sendo confiável, como selecionar o que ler e/ou estudar considerando que o volume de informações é cada vez maior e o tempo para aperfeiçoamento cada vez menor? Em relação à primeira pergunta, é importante estar atento às qualificações do interlocutor. Para páginas de internet, o ideal é buscar sempre os sites ou as páginas que representam uma associação, tais como o site da Associação Brasileira de Déficit de Atenção, ABDA (www.tdah.org). Caso queira saber informações sobre a confiabilidade de outros sites ou se existe fundamentação científica para qualquer afirmação que tenha lido ou que tenha ouvido em uma entrevista, é possível escrever um e-mail para a ABDA perguntando a opinião da associação sobre o assunto. Lembre que informação é um pouco como alimento, ou seja, dependendo da qualidade nos fará bem ou mal.

FONTE:http://www.tdah.org.br/images/stories/site/pdf/tdah_uma_conversa_com_educadores.pdf.

Acesso em 21/03/2017, às 13h53min.

MEU ALUNO É DISLÉXICO, O QUE FAZER?

Psicopedagogia: como ela pode ajudar?

Write by Eliane Costa Kretzer – Psicopedagoga

ALGUMAS DICAS E ORIENTAÇÕES PARA A ESCOLA NO TRABALHO COM ALUNOS DISLÉXICOS

  • Favorecer a comunicação usando frases curtas e concisas sem utilizar linguagem simbólica ou metafórica.

  • Colocar o aluno perto do professor e do quadro; supervisionar seus trabalhos e a sua organização.

  • Favorecer o diálogo certificando-se que haja uma compreensão do objetivo da aula, do raciocínio desenvolvido e dos fatos apresentados.

  • Não economizar tempo para constatar se ficaram claros os conceitos trabalhados: quando, onde e como?

  • Observar a integração entre os colegas, pois poderá ocorrer rejeição em provas em dupla e apresentação de trabalhos.

  • Ajudar no fortalecimento de seu ego e na construção de sua auto-estima.

  • Elaborar aulas com material visual, claro e criativo que chame a atenção.

  • Criar dicas, atalhos e associações para facilitar sua fixação de conteúdos.

  • Apresentar o conteúdo em partes de maneira indutiva e clara, evitando abordagens globais e dedutivas.

  • Usar sempre mais de um canal de aprendizagem e informação, com diferentes recursos audiovisuais.

  • Permitir o uso de gravador e recursos de informática.

  • Trabalhar com o erro de forma construtiva e não punitiva.

  • Elaborar exercícios com erros produzidos deliberadamente.

  • Valorizar sempre o desempenho individual e “tolerar” as dificuldades gramaticais como pontuação, acentuação e caligrafia.

  • Sempre que possível preparar avaliação individualizada com esquemas e gráficos que permitam a apresentação de seu conhecimento.

  • Dar oportunidade de refazer a prova oralmente.

  • Proporcionar interprete nas provas escritas.

Fonte: Estas são algumas das recomendações divulgadas pela Associação de Dislexia de Santa Catarina – Rua Desembargador Pedro Silva,79 – Blumenau – SC – CEP89012-150 – (47) 3222-0097)

Eliane Costa Kretzer – Setembro de 2013

Aproximação da família com escola apoia o aluno e transforma educação

Carta Capital, Maio 2016.

Engajamento entre ambos deve focar na percepção de que parceria pode trazer bons resultados para o estudante. Engajamento FamiliarA família e a escola devem caminhar juntas para apoiar o desenvolvimento dos alunos. Embora essa afirmação seja quase um consenso entre os profissionais da educação, a aproximação entre ambos os lados ainda é um desafio. Enquanto diretores e professores se queixam da falta de envolvimento da família na educação, pais ou responsáveis dizem não encontrar espaços de participação dentro da escola. Para romper essas barreiras, especialistas defendem que é necessário investir no diálogo, seja para acordar os horários da reunião de pais ou até mesmo criar estratégias efetivas de participação. Os desafios e caminhos para concretizar a integração família e escola são tema de uma série de reportagens do Porvir que se inicia hoje. “Não existe uma regra geral de como se aproximar das famílias. Cada escola precisa descobrir junto com as famílias um jeito de trazer essa participação”, defende a professora e pesquisadora Heloisa Szymanski, doutora em educação pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pós-doutora pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Sem uma receita para dar conta da aproximação entre escolas e famílias, a pesquisadora menciona que os casos mais bem-sucedidos reforçam a importância de ouvir os pais e representantes da comunidade. Durante as reuniões, por exemplo, que são um dos momentos mais comuns de interação entre ambos, a falta de escuta resulta na convocação de encontros em dias ou horários que as famílias não podem comparecer. Se de um lado a reclamação é de que ninguém vai às reuniões, do outro, a justificativa é de que não é possível faltar em um dia de trabalho ou desmarcar um compromisso. O formato de boa parte dos encontros também não contribui para essa aproximação, principalmente quando dificuldades de crianças são expostas na frente de todos os pais. “Já está mais do que comprovado que esse tipo de reunião não funciona. Tem que inovar, mas inovar junto com representantes de famílias e alunos”, aponta. Em muitos casos, a participação da família na escola ainda fica restrita à ações pontuais. “Os pais são chamados na escola só para pegar o boletim dos alunos ou para uma festa para arrecadar fundos. E, ultimamente, não conseguem nem mais participar da elaboração da festa”, conta Kezia Santos, coordenadora geral do CRECE (Conselho dos Representantes dos Conselhos de Escola do Estado de São Paulo). Mãe de um menino no terceiro ano do Ensino Médio e de uma menina no quinto ano do Ensino Fundamental, há mais de 15 anos ela representa o segmento de pais no município e no estado de São Paulo. Por meio do Conselho Escolar, que garante a participação de pais, representantes de alunos, professores, funcionários e membros da comunidade nas decisões de escolas públicas, Kezia acompanha de perto os desafios dessa relação. Ela diz que a ausência de diálogo entre ambos os lados e a falta de uma cultura de participação são algumas das maiores dificuldades observadas no dia a dia. “Eu costumo falar que a escola não deve formar só o aluno. Ela tem que formar os pais”, aponta Kezia, quando diz que a relação com as famílias também deve estar entre as prioridades das escolas. Por outro lado, ela observa que diretores e professores precisam entender que a presença da família na escola não pode ser vista como uma ameaça ou espécie de intromissão. “Quando eu entrei na EMEI (Escola Municipal de Educação Infantil) e comecei a participar do conselho, pedi para ver o regimento da escola. A escola disse que não poderia me fornecer porque eu não saberia interpretar”, lembra Kezia. Para Priscila Cruz, diretora executiva do Todos Pela Educação, o que faz diferença na hora de aproximar famílias e escolas é a percepção de ambos de que essa parceria pode trazer resultados para o aluno. “Tem um acúmulo de desafios que as escolas enfrentam todos os dias e muitas acabam vendo as famílias como mais uma coisa a ser feita, mais uma tarefa que elas precisam dar conta. Até que elas percebem que com a parceria da família vão ter o seu trabalho facilitado”, menciona. Nos Estados Unidos, no centro de estudos Harvard Family Research Project, as pesquisadoras Heather Weiss e Elena Lopez têm acompanhado algumas estratégias que podem trazer resultados mais efetivos para essa aproximação, como visitas do professor à casa das famílias para apresentar o projeto pedagógico antes do ano letivo começar ou o uso de metodologias design thinking para envolver os pais em desafios e trazem suas ideias para dentro da escola. “Isso é um jeito de dizer: as famílias têm ideias, então vamos trabalhar com elas para desenvolvê-las”, conta Heather Weiss, que é diretora do projeto. De acordo com Heather, não existe um limite claro entre o que é responsabilidade da família e o que é responsabilidade da escola, mas é importante que os dois lados trabalhem juntos para fazer com que o aluno aprenda e seja bem-sucedido. Ela ainda chama atenção para o fato de que as estratégias de aproximação devem passar por mudanças organizacionais, que envolvem desde o apoio aos diretores escolares até a inclusão desse tópico na formação inicial e continuada de professores. Naquele país, estratégias voltadas para o engajamento familiar têm ocupado espaço entre as políticas públicas desde a década de 1960 e existem leis que destinam uma parte da receita dos distritos para ações que incentivam a participação. “As pesquisas mostram que é importante para as famílias entenderem que elas têm um papel na vida de seus filhos, em seu aprendizado, desenvolvimento e perceber que suas práticas podem fazer a diferença. Os pais conseguem fazer isso quando a escola chega até eles por meio de convites feitos pelos professores ou quando oferecem um ambiente acolhedor para interagir”, explica Elena Lopez, vice-diretora do Harvard Family Research Project. Como uma forma de estimular o engajamento de famílias e escolas pela mudança da educação brasileira, há dois anos o movimento Todos Pela Educação lançou a campanha “5 Atitudes pela Educação”, que propõe ações cotidianas para acelerar avanços educacionais. “Valorizar a educação e fazer a sua parte não é necessariamente fazer um acompanhamento acadêmico”, diz Priscila, ao destacar outras ações podem ser efetivas, como promover a valorização do professor, ajudar a desenvolver habilidades importantes para vida, incentivar que as crianças e jovens entendam a educação como um valor importante, apoiar o projeto de vida dos alunos e ampliar o repertório cultural e esportivo deles. Muito além do domínio de conteúdos escolares, a diretora executiva do Todos Pela Educação afirma que a família tem um papel fundamental de apoiar os alunos durante diferentes etapas. Se na educação infantil a criança precisa de afeto e referências para se desenvolver, quando ela chega na primeira etapa do ensino fundamental os pais ou responsáveis precisam valorizar a leitura para apoiar a sua alfabetização. Na adolescência, quando o estudante passa para os anos finais do Ensino Fundamental, a escola assume um papel muito importante de ajudar a família a compreender e se reconectar com o universo dos adolescentes. Já no Ensino Médio, as preocupações devem ser voltadas para ajudar os jovens no seu projeto de vida. “Tem inúmeras maneiras da família ajudar a escola no crescimento do aluno. A própria presença da família já é a coisa mais importante”, defende o diretor Eliseu Paiva, da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Dr. César Cals, em Fortaleza (CE). De acordo com ele, os pais querem ver os filhos crescerem e querem saber de que maneira a escola pode ajudá-los a atingirem seus objetivos. Em 2009, quando o diretor assumiu a gestão da escola, as reuniões chegavam a juntar apenas 24 pais ou responsáveis. Hoje, os encontros acontecem aos sábados e já dão conta de reunir mais de 400 famílias para apresentar a prestação de contas do trabalho realizado pela escola, refletir sobre temas importantes para a educação dos alunos e também tratar do acompanhamento escolar dos adolescentes. Segundo ele, a presença de quase um terço das famílias é resultado de diferentes estratégias. Entre elas, o uso de redes sociais para facilitar a comunicação e a designação de um professor por classe para assumir a posição de diretor de turma, que fica responsável por mediar o contato com as famílias. De acordo com os resultados da pesquisa Cultivando a Aprendizagem Diária, realizada pela Fundação Lemann, a empresa de investimento em filantropia Omidyar Network e a consultoria de inovação IDEO, as competências socioemocionais e a concepção de aprendizagem como uma habilidade para a vida podem formar a ponte que aproxima o trabalho da família e da escola. “O elemento comum que une esses dois atores é justamente o objetivo final de que a educação prepare as crianças para a vida”, comenta Camila Pereira, diretora de projetos da Fundação Lemann. Ao pesquisar o que motiva o envolvimento da família na educação, a publicação identificou que os pais ou responsáveis não se sentem qualificados para ajudar os filhos nos conteúdos escolares, mas acreditam ser responsáveis por apoiar no desenvolvimento de habilidades para a vida. “Em casa, você está mais preocupado se o seu filho será uma pessoa feliz e se ele conseguirá alcançar seus objetivos”, explica Camila. Embora muitas famílias tenham o desejo de se envolver mais, muitas não sabem por onde começar. Além disso, a pesquisa também identificou que existem diferentes níveis de engajamento. Antes que os pais estejam mobilizados para influenciar mudanças políticas educacionais, eles devem estar engajados com a educação dos filhos dentro de casa. A partir daí, eles conseguiriam se conectar mais com a escola e, em um terceiro estágio, poderiam criar um compromisso com a educação em uma esfera maior. “Seria muito difícil você ser um pai engajado por uma educação pública de qualidade se você não tivesse uma conexão muito forte com o seu filho e muito forte com a escola dele. ”

Autoestima e desenvolvimento infantil

 

     Atrasos no desenvolvimento da fala e da linguagem, transtornos do aprendizado e dificuldades de socialização são queixas recorrentes associadas aos alunos encaminhados ao SEFOPPE, Clínica de Fonoaudiologia, Psicopedagogia e Psicologia mantida pela Secretaria Municipal de Educação de Gaspar, cidade catarinense localizada no Vale do Itajaí. E é digno de nota o quanto a baixa autoestima está envolvida nesses casos, contribuindo sobremaneira para o insucesso escolar e limitações na socialização.

     Assim, expusemos a seguir uma entrevista da psicoterapeuta Lívia Mattos concedida à revista UMA sobre a importância da autoestima, haja vista ser de grande relevância abordar o tema com pais e educadores, no intuito de reduzir potenciais limitações ao desenvolvimento infantil.

Leia a entrevista na íntegra aqui.

Assiduidade na pré-escola agora é Lei Federal !!!

Escolas de todo o país vão exigir 60% de presença na pré-escola

Regra, que vale para crianças de 4 e 5 anos, está prevista em lei que passou a vigorar neste ano

Medida atinge quase 5 milhões de crianças no Brasil; os casos mais graves de faltas podem render multa aos pais

FÁBIO TAKAHASHI, DE SÃO PAULO

As famílias das quase 5 milhões de crianças na pré-escola de todo o país terão uma preocupação a mais neste ano. Uma lei federal passou a exigir que os alunos nessa etapa tenham ao menos 60% de presença. Vale para crianças na faixa de quatro e cinco anos, da rede pública e particular.

Em termos absolutos, o aluno não pode faltar mais do que 80 dos 200 dias letivos ou 320 das 800 horas anuais.

Caso a criança ultrapasse esse patamar, pais e escolas poderão ser obrigados a apresentar explicações às supervisões municipais de ensino (que devem fazer avaliações periódicas dos relatórios da rede pública e particular).

Os casos graves de faltas podem ser encaminhados ao conselho tutelar ou ao Ministério Público, segundo a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

No limite, os pais correm o risco de serem punidos com base no Estatuto da Criança e do Adolescente, por descumprimento de dever inerente ao poder familiar (multa de 3 a 20 salários mínimos; isto é, de R$ 2.172 e R$ 14.480).

Por outro lado, a lei federal que prevê o controle de faltas é clara em dizer que a criança não pode ser reprovada na pré-escola.

A NORMA

A frequência mínima está prevista em lei sancionada pela presidente Dilma Rousseff em abril de 2013, que regulamenta a obrigatoriedade das matrículas no país (até 2016, todas as crianças e adolescentes de 4 a 17 anos deverão estar na escola).

A restrição às faltas não ganhou repercussão à época, mas passará a ser cobrada neste ano, segundo o Ministério da Educação e a Secretaria Municipal de Educação.

Na capital paulista, por exemplo, alguns supervisores de ensino já avisaram as escolas que vão acompanhar a frequência das crianças.

A restrição pode atingir, por exemplo, famílias que viajam de férias durante o período letivo –como a pré-escola não tem currículo rígido como do ensino fundamental ou médio, alguns pais sentem mais liberdade em não levar a criança para o colégio.

Localizada na zona oeste de São Paulo, a escola Jacarandá enviou informe aos pais pedindo que sejam evitadas “faltas desnecessárias”, devido à nova lei.

A diretora da escola, Tania Rezende, disse, porém, serem raros os casos de crianças que extrapolem o limite de faltas. E aponta que a supervisão de ensino precisa relevar casos de problemas sérios de saúde ou de desenvolvimento.

Já o diretor do colégio Equipe, no centro de São Paulo, disse que ainda não foi instruído por nenhum dirigente de ensino sobre a regra. “Como não está claro o objetivo da lei, ela fica meio inócua.”

À Folha o Ministério da Educação disse que a frequência foi imposta “porque não havia baliza de frequência mínima para ser utilizada por operadores do direito ou agentes públicos para atestar que o direito das crianças pequenas estavam garantidos”.

Até então, havia frequência mínima apenas para os ensinos fundamental e o médio (75% de presença).

“A educação infantil tem currículo, objetivos”, disse o secretário municipal de Educação de São Paulo, César Callegari, cuja pasta é responsável pela supervisão do ensino infantil na cidade. “A presença é importante para que o currículo seja desenvolvido.”

Ex-membro do Conselho Nacional de Educação e atual integrante do Conselho Estadual de Educação paulista, a pedagoga Sylvia Gouvêa afirma que o acompanhamento das faltas parece ser uma medida meritória, mas cobra que sejam divulgados explicitamente os procedimentos a serem adotados em caso de muitas ausências.

“A verificação da frequência não deve ter caráter punitivo, mas educativo.”

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/150546-escolas-de-todo-o-pais-vao-exigir-60-de-presenca-na-pre-escola.shtml

Uso de drogas na adolescência. “Prevenção com repressão, não queremos!”

O TEXTO A SEGUIR REFERE-SE A UMA SÍNTESE DO TÓPICO “PREVENÇÃO COM REPRESSÃO, NÃO QUEREMOS!” DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO INTITULADA ABORDAGENS PEDAGÓGICAS DE PREVENÇÃO DO USO INDEVIDO DE DROGAS POR ADOLESCENTES: DA PRÁTICA DA OPRESSÃO À PRÁTICA DA LIBERDADE”. O TRABALHO EM QUESTÃO FOI ELABORADO E APRESENTADO POR WÂNIER APARECIDA RIBEIRO, PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM EDUCAÇÃO PELA PUC-MG.

Em entrevistas realizadas, tanto com adolescentes quanto com professores do ensino fundamental e médio pode-se perceber um consenso com relação ao conceito de prevenção. De forma geral, os conceitos formulados apontaram:

É uma medida que antecede um fato.” (P6, 06/03/01)

‘‘São ações que visam a evitar que algum mal possa acontecer.” (Felícia, 17 anos, 2ºB, 06/12/00)

No caso da prevenção do uso indevido de drogas, essas conseqüências seriam relativas a várias ordens, entre elas biológica, psicológica, social.

A repressão, uma primeira concepção de prevenção, foi um mecanismo que não obteve êxito, devido ao seu discurso alarmista e moralista, como também por destoar da realidade concreta do usuário. Essa concepção origina-se, historicamente, do modelo jurídico-moral e, posteriormente, do sanitarista, que privilegiam os aspectos legais e aqueles referentes ao perigo do uso das drogas. O usuário, nesse sentido, é considerado como um infrator ou como vítima de um mal que é a droga. Trata-se de uma visão reducionista que não leva em consideração fatores sócio-culturais, psicológicos e biológicos. Sua prioridade é o produto tóxico proibido, assim como os efeitos nocivos sobre o indivíduo que o consome e o perigo ao qual a sociedade está exposta. 

Os adolescentes entrevistados demonstram insatisfação com relação a tal tipo de abordagem quando relatam:

‘’ Estamos cansados de escutar estas palestras que não

têm nada a ver com a nossa realidade e nem com a

verdade. As pessoas costumam inventar muito em cima

do real para ver se convencem os jovens a não usarem as

drogas. Quando falam de drogas, geralmente querem nos

assustar, com cenas horríveis, com slides e filmes ainda

mais horríveis. Falam ma da droga, as pessoas que usam

morrem de rir, caçoam, pois sabem que não é bem assim.

Falam só do mal que a droga provoca, mas não admitem

que ela também faz bem. Para quem gosta, este tipo de

trabalho se torna uma “babaquice”. Acho que as palestras

deveriam ser mais light, mais reais, mais concretas

mesmo, levando em consideração aquilo que já sabemos.

Falam também de uma proibição, da questão legal etc e

tal, a gente sabe de tudo isto, só que quem vem falar

coloca a droga num pedestal e as coisas não são bem

assim.”(Fernanda,17anos, 1ºA, 06/10/00 – Grupo 1)

“Todos os palestrantes que vêm na escola dizem a

mesma coisa: falam do mal que a droga traz , mostram

aqueles cartazes e filmes horríveis em que o usuário

sempre se dá mal. Na verdade, aqueles que usam

pensam: “comigo é diferente, este pessoal não está com

nada”. É assim que ouço meus colegas usuários falando.

Na realidade este tipo de trabalho é cansativo, entra num

ouvido e sai pelo outro, não traz nenhum proveito, mas

isto acontece porque o pessoal não sabe conversar com

os adolescentes. O trabalho de prevenção na escola não

deveria ser esta canseira, que impõe uma certeza de fora

para a gente. Eles não sabem fazer prevenção.

Prevenção com repressão a gente não quer não.”

(Márcio, 18 anos, 2º B, 06/12/00 – Grupo 2)

Como os adolescentes relatam, para a sustentação da proposta repressiva são utilizados argumentos de ordem moralista, sensacionalista ou, ainda, emocional, objetivando chocar, amedrontar e alarmar a sociedade e, principalmente, os usuários. Esse tipo de discurso não obteve e continua não obtendo repercussão, visto que a exagerada forma de abordar os fatos não coincide, pelo menos de imediato, com aqueles efeitos que os próprios usuários experimentam. Tal ineficácia pode ser observada nos relatos dos adolescentes quando, em entrevista, lhes foi perguntado sobre a importância do desenvolvimento de projetos de prevenção do uso indevido de drogas em sua escola. Obtiveram-se respostas do tipo:

Acho muito importante este trabalho na escola, pois,

nem todos os pais têm abertura para conversar com a

gente. O adolescente precisa destas informações para

que ele possa escolher melhor sobre o que vai fazer de

sua vida, só que não adiantam estas palestras cansativas

que a gente está cansado de ouvir a mesma coisa. Droga

faz mal, não use, ela mata, dá cadeia, enfim, eles querem

aterrorizar para a gente não usar. Este papo é “careta”, a

gente tem curiosidade de saber das coisas, mas

queremos participar, dialogar. Com o adolescente não

adianta impor, pois ele é do contra, gosta de mostrar que

é livre para fazer o que quer. Igual aquelas propagandas

que mostram o usuário se acabando, morrendo, aquilo é

ridículo, pois quem usa, nem sempre acaba assim, se

acaba é mais devagar. Também, quem usa só vê que

está se acabando quando não tem mais jeito. Acho que

um projeto legal é aquele que dá espaço para o

adolescente falar, não é pelo medo que alguém vai nos

convencer. Uma vez participei de uma palestra que o

pessoal começou mostrando um tanto de gente morta, um

pessoal seco, definhado, a gente começou foi a rir e o

mais interessante é que o palestrante fumava. No final da

palestra ele acendeu um cigarro e saiu fumando, a gente

não agüentou, fomos atrás dele e metemos o ferro nele.

Tá achando que só o bagulho que mata?” (Fabiana, 17

anos, 3ºA, 04/10/00 – grupo 1)

“Os palestrantes geralmente têm uma visão distorcida de

jovem, acreditam que somos ingênuos e então trazem um

discurso moralista para a gente, acreditando que estão

corretos e que têm a verdade. As informações que

trazem, muitas vezes, já sabemos de todas através dos

livros. A questão da prevenção não está apenas no fato

de explicar o que a droga provoca, a questão é abrir a

mente do sujeito para a responsabilidade diante de sua

vida, mostrar e fazê-lo refletir sobre o que ele está

fazendo e pode piorar a sua vida. Entende? Desenvolver

estes tipos de atividades para a gente não tem validade,

os palestrantes e as escolas deveriam entrar na

linguagem e no mundo dos jovens, do jeito que fazem,

não está com nada.”(Malaquias, 13 anos, 1º B, 08/11/00 –

Grupo 2)

Com relação à forma (estratégia) ideal para abordar o tema com o adolescente, eles relatam:

Você sabe, adolescente é meio rebelde, não adianta

impor, se você vem na pressão não consegue nada.

Adolescente é do contra, às vezes só para contrariar ele

faz o contrário. Se os pais falam uma coisa de forma

autoritária acontece o contrário, da mesma forma é na

escola, se o professor ou qualquer pessoa quer mandar,

quer exercer pressão aí pode saber que a coisa não anda,

dá para trás. O negócio é abrir para discussão, deixar o

adolescente falar das suas idéias, discutindo numa boa,

talvez ele até mude de opinião, mas não pode forçar a

barra.”    

(Milton, 16 anos, 1ºB, 08/11/00 – Grupo 1)

“Ah! Tem que chegar junto, senão não funciona mesmo.

Adolescente é arredio, fica com o pé atrás. A gente

desconfia de tudo e de todos e debochamos também,

principalmente, quando querem convencer a gente na

marra. A melhor forma é não vir com repressão, com

força. Sabe como? Falar, conversar, pedir nossa opinião,

não jogar ‘ 7/1’ para cima da gente.”           

(Kátia,13 anos, 7ª B, 15/11/00-Grupo2)

Quando indagados sobre os tipos de estratégias mais comuns utilizadas pela escola para abordar o tema:

‘’ Geralmente são lâminas com dados estatísticos, slides

com os tipos de drogas, filmes que mostram os

adolescentes na lama, aqueles comerciais que a rede

Globo gosta para aterrorizar o uso do pó e do crack. Tipo

aqueles que a Cláudia Ohana participou uma vez, onde

ela se consumia. Lembra? Tudo bem que possam mostrar

60

isto, mas é muito dramático para o meu gosto. Na

realidade custa para a pessoa chegar naquele ponto. Isto

não convence o jovem. Sem contar que se a gente criticar

a Diretora é bem capaz de dar uma advertência. Os

professores pedem pesquisa de vez em quando, mas é

muito raro. O que mais acontece são outras pessoas, que

vêm de fora, falarem para a gente.”

(Márcio, 18 anos, 2ºB 06/12/00- grupo2)

Os sucessivos fracassos da prevenção baseados na repressão levaram profissionais de várias áreas do conhecimento a discutirem e proporem a idéia da educação preventiva, que leva em consideração a questão do consumo situado no contexto social e humano. O abuso do consumo deve ser analisado como um sintoma que ocorre em função de vários aspectos: biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, culturais, políticos, entre outros. O uso e o abuso são inseridos numa realidade concreta, focalizando a responsabilidade pessoal e não apenas apontando a droga como um produto perigoso. (Bucher, 1991)

Ao perguntar para os adolescentes, que participaram do projeto Adole-ser, sobre sua percepção em relação às estratégias utilizadas em suas atividades, foram obtidos os seguintes tipos de resposta:

Todo mundo que participou deste projeto fala que ele o

foi o primeiro que, realmente, abordou de forma aberta a

prevenção, não sei se foi porque foram profissionais da

N.P, pois têm maior conhecimento, foram os primeiros

que falaram claramente para a gente…”

(Maurílio, 17 anos, 1º B, 24/10/00 -Grupo2)

Teve espaço para o diálogo e também eles não

começaram com aquelas palestras cansativas, que falam

que a droga faz mal. Primeiro criaram um espaço para

discussão e reflexão através das oficinas e dinâmicas que

nos despertaram para querermos saber de dados mais

científicos depois. Aí entrou a parte de mitos e verdades e

a gente que tinha que tentar achar uma resposta. Todos

queriam que eles voltassem para trabalhar de novo com a

gente.”

(Márcio,18 anos, 2ºB, 06/12/000 -Grupo2)

O mais legal foi que eles deixaram a gente se posicionar

nas escolhas, escutando sobre o que a gente pensava.

Tinha gente que mudava de opinião no meio das

atividades. Foi muito interessante!”

(Manoel,16 anos, 2ºA, 04/10/00-Grupo2)

O que eu mais gostei é que eles deram espaço para o

adolescente se posicionar e é disto que a gente precisa.”

(Marcos, 16 anos, 1ºB, 24/10/00 -Grupo2)

Eu gostei porque no final cada um tinha que tirar sua

própria conclusão, não teve nada imposto.”

(Fátima, 18 anos, 07/10/00-grupo2)

Foi diferente de tudo que eu já assisti, eles não

mandaram fazer a escolha que era certa, deram espaço

para discussão. Não foram aquelas palestras enjoadas.

As oficinas é que eram legais. Acho que nunca vou

esquecer deste trabalho, mexeu com muitos colegas que

fazem o uso.”

(Feliciana,17 anos, 2º A, 06/10/00 -grupo2)

“Achei diferente de todas as palestras de drogas que

participei na escola, quer dizer que já assisti, pois a gente

não participa de nada, o tempo todo o pessoal só fica

falando com a gente e a gente escutando e, muitas vezes,

a gente fica dormindo ou zuando, pois não dá para

agüentar. Eles deixam a gente falar o que a gente pensa,

depois a gente sai na maior dúvida o que é melhor e o

que pior, faz a gente pensar sobre o assunto mesmo.”

(Flávia, 13 anos, 7ªA, 07/10/00 – Grupo2)

A proposta é direcionada para conscientização das crianças e jovens, no sentido de conseguir efeitos amplos, duradouros e multiplicadores. Tal abertura pressupõe que o papel dos educadores seja o de despertar no aluno uma consciência crítica, avançando para além dos conteúdos sistematizados, com o propósito de se aproximar cada vez mais da realidade social dele.

Uma nova proposta que vem sendo utilizada por escolas e outros órgãos é a prevenção a partir de três níveis: primário, secundário e terciário. 

A prevenção primária pretende atuar antes que haja o uso da droga. Deve ser iniciada na infância, associada a um quadro mais amplo de educação para a saúde. Deve contar com o apoio de “educadores naturais, sendo pais e professores” (Bucher, 1991, p. 32). Com os jovens e adultos, ela precisa voltar-se para a conscientização e sensibilização diante de sua existência e, em conseqüência, para a responsabilidade de suas escolhas. Portanto, é esse o tipo de prevenção a mais necessária na escola, pois é a partir dela que será possível evitar que o adolescente faça o uso e/ou abuso da droga. 

A prevenção secundária é um prolongamento da primária. No nível secundário, já houve o consumo de alguma droga, mesmo que de forma intermitente, e a preocupação aí é que a dependência não se instale. Assim, é importante dialogar com o usuário, tendo o cuidado de fazer intervenções para que ele possa se informar e, ao mesmo tempo, questionar-se a respeito do significado que atribuí a tal uso. Esse diálogo poderá vislumbrar outras possibilidades de escolha, evitando, inclusive, outros fatores de risco em que o usuário possa se envolver, ou seja, riscos legais, de saúde física e psicológica, etc. É importante lembrar que o uso da droga por alguns adolescentes, enquanto experimentação ou rito de passagem, não se constitui em abuso ou dependência. Considera-se, também, que o uso de alguma droga possa acontecer esporadicamente nas vidas de algumas pessoas, sem necessariamente constituir-se em abuso, pois este é visto como um uso mais contínuo e em maiores quantidades. Por outro lado, nem todo abusador é considerado dependente. O dependente necessita da droga, de forma mais contínua, geralmente o uso é diário, e em quantidades cada vez maiores. Não é possível precisar qual usuário esporádico possa vir a ser abusador ou não, assim com não é possível prever se o usuário esporádico e abusador se tornará dependente. Inúmeras variáveis influenciam essa questão, ou seja, aspectos socioculturais, biológicos, psicológicos, econômicos etc. A relação que o usuário traça com a droga parece ser um determinante para se instalar a dependência. Assim, é muito importante que as pessoas que estejam dispostas a contribuírem com intervenções junto aos adolescentes usuários e/ou abusadores estejam abertas à escuta para compreenderem o significado do uso e/ou abuso.

Já a prevenção terciária pressupõe que a dependência esteja instalada. Atuando antes de um tratamento adequado, ela visa ajudar na formulação de um pedido de ajuda. Durante o tratamento visa a desdramatização da situação, sem, contudo minimizá-la, ajudando o usuário a não interromper o processo terapêutico. Após o tratamento visa uma ação conjunta com uma instituição especializada em reinserção social.” (Bucher, 1991, p. 31). Vários fatores podem influenciar no sentido de não se realizar o tratamento da dependência, dentre eles, o desinteresse ou o conflito vivenciado pelo próprio usuário, a falta de condições econômicas, inexistência de programas sociais públicos, falta de apoio familiar, nível de dependência física ou psicológica etc. Nesse caso, a prevenção terciária visa a diminuir os danos que o uso possa causar. 

Clique AQUI para acessar o trabalho na íntegra.