Dislexia: Visões ético-políticas

AUTORES – Lúcia Masini e Cláudia Perrotta

Já há algum tempo, o termo dislexia deixou de circular apenas entre especialistas e vem figurando na mídia em geral: jornais impressos, rádio, revistas, propagandas na TV .

Dislexia tem origem grega, sendo a contração de dis = difícil, prejudicada, e lexis = palavra. Palavra difícil, geradora de muitas polêmicas e que exige um posicionamento ético muito claro por parte dos profissionais envolvidos com pessoas que recebem esse diagnóstico. Fonoaudiólogos, psicopedagogos, psicólogos, cada vez mais, tratam de crianças, adolescentes e até adultos considerados disléxicos, muitos deles encaminhados pelas instituições escolares por professores que suspeitam do distúrbio.

Inclusive, recentemente circulou na Câmara Municipal de São Paulo projeto de lei (PL) que propõe a criação de um “Programa Estadual para Identificação e Tratamento da Dislexia na Rede Oficial de Educação”. Segundo o texto, o Programa “terá caráter preventivo e também proverá o tratamento do educando, [devendo] abranger a capacitação permanente dos educadores para que tenham condições de identificar os sinais da dislexia e de outros distúrbios.”

Sobre esse projeto, que já foi considerado inconstitucional, há tanto manifestações favoráveis, de profissionais que defendem a necessidade de se identificar precocemente o distúrbio, como desfavoráveis, daqueles que questionam a validade do diagnóstico e alertam para a possibilidade de a lei contribuir para estigmatizar os que destoam do padrão de desenvolvimento e são apressadamente caracterizados como doentes.

Tratar-se-ia, pois, de uma tendência à “medicalização” de questões sociais, ou “patologização da educação”, que tem gerado reações contundentes de especialistas de instituições como o CRP (Conselho Regional de Psicologia), USP (Universidade de São Paulo) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ou seja: questões como falta de concentração, dificuldade de aprendizagem, entre outras estariam sendo, de imediato, tratadas como doenças, levando a um número elevado de crianças medicadas sem necessidade.

A questão é tão fundamental que ganhou, em 21/09/09, um espaço na Câmara Municipal de São Paulo. O Seminário: Dislexia – Subsídios para Políticas Públicas foi promovido pelo CRP-06, SinPsi (Sindicato de Psicologia), Câmara Municipal de São Paulo, na pessoa do vereador Eliseu Gabriel, e Grupo Interinstitucional Queixa Escolar, com apoio das Secretarias Municipais de Saúde e de Educação.

Os profissionais reunidos debateram o assunto a partir dos seguintes aspectos: enfrentamento de dificuldades de leitura e escrita no Município de São Paulo; questionamentos sobre a existência da dislexia a partir de estudos científicos; embate em torno da medicalização e escolarização.

Esse é de fato um tema caro para nós, profissionais que trabalhamos na área da linguagem, além de muito complexo, pois, não raras vezes, as histórias de vida de nossos pacientes com dificuldades para ler e escrever, bem como o desmembramento dos processos terapêuticos nos levam, justamente, a discordar do diagnóstico de dislexia.

Como então devemos nos posicionar? Como apresentar nossas discordâncias e entendimento para os representantes das instituições escolares, que, muitas vezes, insistem nessa doença? E quanto aos familiares, que tão ansiosamente buscam uma explicação para os problemas de aprendizagem de seus filhos? Como explicar por que desconfiamos de um diagnóstico que existe, muitas vezes, para livrar a pessoa que sofre desse mal do rótulo de burro ou vagabundo? Na verdade, é a troca de um estigma por outro, ambos perigosos e inespecíficos…

Vamos refletir sobre o tema.

Uma polêmica longe do consenso

Apesar ser considerada uma doença neurológica e de existir nos guias de classificação médica, como o CID 10 e o DSM IV, a dislexia não possui um diagnóstico preciso para a área médica.

Na mesa redonda promovida pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, em março de 2009, intitulada: “Dislexia e TDAH: questões e polêmicas teórico-práticas”, Maria Aparecida Affonso Moysés, pediatra, profª titular da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, questionou, justamente, o recente aumento dos diagnósticos de Dislexia e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade –TDAH: Existe uma doença neurológica que compromete só a aprendizagem da língua escrita e o comportamento, que são as áreas mais sofisticadas, complexas e de maior diversidade do ser humano? Como é feito o diagnóstico?

De fato, para a área científica, em especial o diagnóstico de dislexia é falho e inconclusivo. E vários são os motivos:

• Trata-se de um diagnóstico de exclusão; ou seja, para que uma pessoa seja considerada disléxica é preciso que apresente somente problemas de leitura e de escrita e nenhum de ordem cognitiva, escolar, social, afetiva ou orgânica. Mas como determinar a não existência desses outros problemas?

• Trata-se de um diagnóstico neurológico obtido indiretamente, através de elementos neurológicos. Mas como determiná-lo se não há consenso entre os pesquisadores sobre quais seriam esses elementos específicos para a dislexia?

• Trata-se de um diagnóstico obtido diretamente pela incidência e persistência de erros na leitura e na escrita; ou seja, a pessoa é disléxica quando apresenta muitos deles. Mas uma pessoa que, por exemplo, ainda não sabe ler e escrever com competência não poderá persistir em alguns erros? Isso não seria um sinal de saúde?

O diagnóstico é, portanto, subjetivo, dependendo dos valores de quem o realiza, o que faz com que a dislexia tenha ‘nota de corte’ (termo utilizado por Moysés, durante o seminário na Câmara Municipal supracitado) bastante flexível. Assim, alguém que, por exemplo, cometa apenas erros ortográficos com certa persistência pode ser considerado disléxico. Como não há nenhuma pesquisa que meça com exatidão qual é o momento final da aprendizagem, como saber se estamos diante de um disléxico ou de alguém que ainda está no curso de seu processo de construção desse conhecimento específico? E como admitir que um problema biológico dependa da autoridade de quem avalia?

A arbitrariedade desse diagnóstico traz embutida uma série de preconceitos. Para exemplificar o que seriam problemas sociais e afetivos que excluiriam a suspeita de dislexia, certa vez, um médico sentenciou: se o garoto tem uma família desestruturada, pai bêbado e mora na favela, aí ele não é disléxico. Quais raciocínios podemos fazer a partir dessa afirmação? Ter pai alcoólatra isentaria o filho de ter dislexia. Morar em favelas também. Ter uma família desestruturada idem. Por outro lado, quem não tem “família desestruturada”, pai bêbado ou não mora em favelas, ou seja, não tem problemas sociais e afetivos, e tem dificuldades de leitura e escrita sem outros comprometimentos orgânicos, fatalmente, será considerado disléxico. E diante da complexidade das relações interpessoais, qual seria um padrão de família estruturada?

O que fragiliza ainda mais este diagnóstico é o fato de as pessoas suspeitas de apresentarem a doença serem submetidas a avaliações que se utilizam da linguagem escrita segundo os métodos tradicionais de ensino. Em outras palavras, o instrumento de ensino que se apresentou ineficiente para que determinada pessoa aprendesse a ler e a escrever é o mesmo usado para diagnosticá-la. Ora, como é que podemos fazê-lo usando como instrumento exatamente aquilo que essa pessoa já traz como sendo sua dificuldade? É óbvio que ela não se sairá bem na avaliação!

Nem os mais modernos exames de neuroimagem escapam à fragilidade do diagnóstico de dislexia. Isto porque, para se obter uma imagem neurológica da área que é ativada quando se lê ou se escreve, é preciso que a pessoa examinada leia ou escreva. Voltamos ao mesmo ponto citado acima: a pessoa que não sabe ler ou lê com dificuldades terá menos ativação em determinada parte do cérebro. Há pesquisas que mostram que as imagens de um cérebro em ativação de um disléxico são muito semelhantes às de um analfabeto. O analfabetismo seria também uma doença neurológica? Nem vamos nos alongar no absurdo dessa proposição. O que temos a considerar é que o exame de neuroimagem detecta sim a consequência, em termos de ativação cerebral, e não a causa da dificuldade para ler ou escrever.

Perseguida desta forma, a dislexia tem deixado de ser um diagnóstico para ser uma sentença. Uma sentença que não leva em consideração a diversidade dos modos de aprender. A aprendizagem, segundo Moysés, com quem concordamos integralmente, é uma das atividades humanas mais complexas e de difícil avaliação porque implica e lida com valores e culturas que variam de família para família. Num mesmo grupo escolar temos inúmeros grupos familiares, inúmeras influências na construção do conhecimento. Como determinar qual é o modo correto de aprender ou o seu tempo exato?

E é importante que se denuncie que algo muito sério está acontecendo com o tempo de aprendizagem. Muitas escolas, tanto particulares como públicas, mais comprometidas com as avaliações externas às quais estão sendo submetidas, estão acelerando processos de aprendizagem de seus alunos para garantir uma boa classificação, e, consequentemente, maior procura no mercado da educação (cf. comentário de Rosely Sayão: “Para que serve mesmo esse ranking?”. http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/). Um dos resultados dessa aceleração é preocupante: ainda no início do processo de alfabetização, as crianças que têm se mostrado mais “lentas” do que a escola gostaria, ou fora de padrões de desenvolvimento, estão sendo encaminhadas para aulas de recuperação (o que seria recuperar algo que ainda faz parte do início de um processo?) ou para especialistas na área. E para justificar este atendimento, o diagnóstico de dislexia ou TDAH tem servido como uma luva.

A quem estamos favorecendo quando aceitamos esse encaminhamento da questão?

Certamente não é a quem sofre por ter sido estigmatizado e considerado incapaz de ler e escrever, embora os adeptos do diagnóstico precoce de dislexia insistam em dizer que sim. Mas o que acontece na vida de uma pessoa pós-diagnóstico? Isso deve ser analisado com extrema cautela.

Há quem relate alívio por saber que o filho ou ele próprio é doente e não vagabundo ou burro, como comentamos anteriormente. Este alívio, por vezes, transforma relações tensas em outras mais saudáveis, e a pessoa consegue ter uma vida feliz e bem sucedida, o que costuma ser, inclusive, um importante argumento dos adeptos do diagnóstico precoce. Para estes, não são raras as grandes personalidades no mundo das artes e das ciências que foram diagnosticadas disléxicas. É a dislexia agregando valor à pessoalidade.

Para outros, entretanto, a certeza da doença é a marca das limitações, pois ter a dificuldade de ler e escrever comprovada significa o fechamento de muitas portas na vida. E, aí, ou se busca algo dentro dessa limitação, ainda que não seja o desejado, ou se persegue o que se quer, mas carregando o fantasma da incapacidade. Em ambas as opções o sofrimento estará presente.

No entanto, há algo que une essas duas posições – a de alívio e de martírio – e que faz da comprovação da dislexia uma sentença e não um diagnóstico: a fuga de situações cotidianas que envolvam a leitura e a escrita.

Num mundo em que as situações de leitura e escrita ganham as mais variadas formas, em que o conceito de letramento tem de ser sempre atualizado para abarcar as novas demandas sociais, é possível viver evitando situações cotidianas letradas? Não, não é possível.

Mas, se questionamos o diagnóstico de dislexia, que tipo de intervenção propomos?

Outra possibilidade de intervenção

Os profissionais das áreas da saúde e educação que optam por estar verdadeiramente ao lado de quem sofre por ter dificuldade em ler e escrever assumem uma outra conduta no encaminhamento da questão.

Não se trata de negar a existência da dificuldade. Trata-se, sobretudo, de se evitar a rotulação da incapacidade como algo constitutivo daquela pessoa. Nossa experiência clínica nos autoriza a dizer que as queixas de dificuldades de leitura e escrita carregam histórias singulares que fazem toda a diferença na condução do processo terapêutico. Isto significa dizer que as dificuldades apresentadas foram construídas ao longo de histórias de vida, pelas parcerias criadas em diferentes contextos, fazendo parte, portanto, do modo de ser de cada um.

Compreender tais dificuldades implica escutar a história de quem nos procura para atendimento; reconstituir alguns caminhos percorridos, identificando conflitos e sofrimentos; ofertar materiais diversos de leitura e escrita, mais para observar como a pessoa lida com eles do que para avaliar o produto realizado. Auxiliá-la na superação de suas dificuldades implica acolher seu modo de ser diante da leitura, da escrita, do erro e do não saber, ofertando, no tempo oportuno, experiências com a leitura e a escrita ainda não vivenciadas, para que, uma vez bem sucedidas, possam ser, aos poucos, incorporadas à sua história de vida, imprimindo-lhe um sentimento de potência e autonomia diante de futuros conflitos.

Se há algo que podemos dizer que seja regra no trabalho de superação de dificuldades de leitura e escrita é o estabelecimento de parcerias saudáveis, pelas quais a pessoa que sofre possa se ver capaz, potente e criativa. Entendemos por parcerias saudáveis aquelas que respeitam as singularidades, que compreendem os ritmos pessoais, que possam reinventar e acolher diferentes modos de aprendizagem e de experiência com o conhecimento.

Uma visão como esta, num contexto social mais amplo, provocaria mudanças profundas em diferentes instituições, pois implicaria assumir novas formas de avaliação e enfrentamento dos problemas de leitura e escrita vividos pela população, deslocando-os do caminho que os toma como problemas individuais para colocá-los na ordem dos processos sociais, sempre complexos e multifacetados, em que a diversidade é inegável. Como sustentar, nesta perspectiva, um diagnóstico de dislexia? Talvez esteja aqui o centro de toda a polêmica.

FONTE: Retirado do site  www.ifono.com.br

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